segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DOIS ENCONTROS COM OS MORTOS NA ITÁLIA por Francisco Souto Neto


DOIS ENCONTROS COM OS MORTOS NA ITÁLIA
 por Francisco Souto Neto


Folha do Batel Ano 4 – Setembro 2002 – Nº 35
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:



Página 4:



DOIS ENCONTROS COM OS MORTOS NA ITÁLIA
Francisco Souto Neto

 
               Catacumbas são cemitérios romanos do século I ao IV, feitos em galerias subterrâneas, às vezes utilizados pelos cristãos – no remoto passado – para reuniões secretas ou cultos. Só na cidade de Roma existem cerca de 40 catacumbas, algumas gigantescas e às vezes interligadas. Além de Roma, há catacumbas também em Nápoles, Sardenha e Sicília. Eu já tive a oportunidade de conhecer algumas delas.

Em pé, os mortos de Palermo

A Sicília é a ilha “chutada” pela bota itálica, onde se localiza o Etna – o vulcão mais ativo do continente europeu – cuja capital é Palermo. No ano de 2001 fiz um cruzeiro de sete dias pelo Mar Mediterrâneo a bordo do Costa Riviera, e um dos portos visitados foi justamente Palermo. O sul da Itália não é uma região muito segura para turistas, frequentemente ameaçados por batedores de carteira e “trombadinhas”, de modo que foi preferível aderir a uma das diversas excursões organizadas pelo próprio navio, dedicando a tarde a conhecer a Catacumba dos Capuchinhos. Ao tomar o ônibus que esperava pelos passageiros no cais, ao lado do navio, a guia apresentou-se e a todos advertiu: "Neste passeio veremos principalmente cadáveres”.
Naquela catacumba estão 8000 mortos, uns poucos deitados, maioria em pé, pendurados ou encostados nas paredes e trajando roupas de época. Os cadáveres mais velhos são de capuchinhos e nobres da Sicília. O mais antigo deles, em bom estado de preservação, é do ano 900, portanto, com 1100 anos! Os mais recentes são do início do século XX.  Alguns esqueletos, às vezes ainda recobertos de débil camada de pele, parecem gritar, outros sorrir. O cadáver adulto mais bem conservado é o de um siciliano morto em 1846.
Corredor dos profissionais. Os melhores do seu tempo:
o pedreiro, o entalhador, o banqueiro, o dentista, e assim
por diante. Costumam ser visitados pelos seus descendentes.

Antonio Prestigiacomo, morto em 1844.

Três mortos em séculos passados.

Mas existe uma menina falecida em 1920, conhecida como La Bambina, que está absolutamente intacta, deitada no interior do seu caixão. Eu me lembrava de ter visto o rosto daquela criança, há alguns anos, num programa de televisão que se chamava “Acredite se Quiser”, apresentado pelo ator Jack Palance. La Bambina continua sendo a principal atração da catacumba. Fiquei a contemplá-la por muito tempo, de certo modo fascinado, porque ela parece dormir envolta pelas suas cobertas, apenas o rosto despontando sereno e inocente. Um laço de fita enfeita os cabelos da garotinha.

"Las Bambina" ("A menina") que se chamava
Rosalia Lombardo. Morta em 1920 e embalsamada.
Parece dormir.

A mumificação de La Bambina foi feita por um médico que morreu sem revelar os métodos que adotou. A irmã gêmea da menina veio visitá-la até ao começo dos anos 90, quando faleceu. Desde então, La Bambina não tem mais recebido visitas de familiares.
No Dia de Finados, em Palermo, os pais costumam levar os filhos às catacumbas, para que visitem seus antepassados. Segundo o costume local, a energia elétrica é desligada naquele dia, e os visitantes valem-se de velas. Não há, entretanto, absolutamente nenhum terror, nem a mínima intenção de assustar a quem quer que seja. Tudo é feito com a maior naturalidade. Aquilo é para os sicilianos um simples fato cultural, uma tradição, um ato de respeito.

Catacumba dos Capuchinhos em Roma

Noutra ocasião eu me encontrava em Roma, quando visitei outra catacumba, também de capuchinhos, bem mais em forma de cripta do que de uma catacumba propriamente dita, anexa à Igreja Santa Maria della Concezione, em plena Via Veneto, uma rua elegante e movimentada conhecida desde os tempos alegres della dolce vita de Fellini... Localiza-se no primeiro quarteirão da referida Via Veneto, a poucos metros da Piazza Barberini, em cuja esquina está a famosa Fonte das Abelhas, da autoria de Bernini.
A igreja foi construída em 1624. Dentro dela há uma sepultura sem nome, próxima ao altar, ao rés do chão, sobre a qual todos os visitantes pisam ao circular pelo templo. Ali está enterrado o cardeal Antonio Barberini, da riquíssima família romana e irmão do Papa Urbano VIII. Por ser capuchinho com voto de pobreza, o cardeal Barberini ordenou que ao morrer, num ato de humildade, fosse enterrado em cova cuja lápide, para ser pisada por todos, não contivesse o seu nome, mas apenas o triste epitáfio em latim: “Hic jacet pulvis, cinis et nihil” (“Aqui jazem pó, cinzas, e nada”).
Sob a igreja, mas com entrada por fora, pela Via Veneto, está uma catacumba diferente, inteiramente decorada com os ossos de 6000 irmãos capuchinhos. O curioso é que tais ossos, desmembrados dos seus donos, ornamentam as paredes formando verdadeiros florais rococós. Do teto pendem lustres compostos com ossos. Cornijas, molduras, tudo, absolutamente tudo, é feito com ossos humanos dispostos como peças decorativas. Ligados por arames invisíveis, formam coroas de espinhos, crucifixos e corações sacros. Um dos poucos esqueletos completos é o de uma princesa Barberini que morreu ainda criança. Alguns esqueletos adultos também foram conservados inteiros, vestidos com trajes eclesiásticos, mas estão sempre cercados pelos “adereços” que formam, nas paredes e tetos, “elegantes” traçados.

Corredor decorado com ossos humanos.
À direita, as diversas capelas.

Crânios de capuchinhos.

Capela com paredes decoradas por caveiras
e ornamentadas com ossos menores. 

Teto de uma das capelas.

O teto desta capela forma "flores"
com ossos ao redor de um esqueleto.

Detalhe da fotografia anterior. Teto de uma das
capelas. O esqueleto central simboliza a Morte,
e sua foice é toda formada com ossos humanos.

Por toda parte, as órbitas oculares vazias dos crânios parecem seguir os movimentos dos visitantes. Apesar disso, a catacumba não chega a ser lúgubre, talvez porque os ossos estejam dispostos de modo a “enfeitar” os diversos cômodos, ou capelas, simulando uma impressão de macabra “beleza”. Ainda assim, ao sair do recinto, vi uma inscrição sobre a porta, que resume a triste realidade dos restos mortais ali expostos: “Nós fomos o que você é”.
É preciso que se compreenda que neste contexto as catacumbas, ao preservarem ossos dispersos ou cadáveres mumificados e vestidos, impõem, principalmente, o respeito aos mortos, tratados sempre com reverência, fazendo-nos refletir sobre a efemeridade da vida.

Ilustrações originais: Foto 1 – La Bambina, morta em 1920. Foto 2 – Pessoas mortas em catacumba de Palermo.
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sábado, 6 de agosto de 2011

GRADES DO PALÁCIO IGUAÇU SERÃO DERRUBADAS - Francisco Souto Neto


GRADES DO PALÁCIO IGUAÇU SERÃO DERRUBADAS
 Francisco Souto Neto


Jornal do Centro Cívico Ano II – 25 de setembro de 2002 – Nº 5
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:


Página 3:




GRADES DO PALÁCIO IGUAÇU SERÃO DERRUBADAS
Francisco Souto Neto

            Se nove dos treze candidatos ao governo do Estado prometem, caso eleitos, derrubar as grades levantadas ao redor dos jardins do Centro Cívico, não tenho dúvida de que votarei num deles, jamais nos outros. Bastam as grades que nós, cidadãos honestos e trabalhadores, fomos obrigados a levantar nos limites dos nossos jardins, como proteção contra as hordas de ladrões e criminosos que impunemente infernizam esta capital e que acabaram com a nossa segurança. As grades do Centro Cívico, ao contrário, servem apenas para macular a beleza dos jardins públicos e para afastar os políticos do povo. Além disso, neste caso específico, a impressão que se tem passado a todos é a de que os honestos é que ficaram do lado de fora.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NO RASTRO DE MARIA ANTONIETA EM VERSALHES por Francisco Souto Neto


NO RASTRO DE MARIA ANTONIETA EM VERSALHES
por Francisco Souto Neto


Folha do Batel Ano 4 - Agosto/2002 - Nº 34
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:



Página 7:



NO RASTRO DE MARIA ANTONIETA EM VERSALHES
Francisco Souto Neto

            Em minha mais recente viagem à Europa, passei uma semana em Paris e reservei um dia para visitar o palácio e jardins de Versalhes, cidade situada na área metropolitana da capital francesa. Com meu amigo Rubens Faria Gonçalves aproximei-me do monumental palácio, cuja fachada foi feita de tal modo, por uma espécie de V invertido, que o visitante vai sendo engolido aos poucos pelo gigantismo da construção, até chegar ao Pátio de Mármore, em cujo centro, no andar superior, localizavam-se os aposentos do rei.

As cerimônias do despertar e do adormecer

            Começamos o passeio pelo interior do palácio que foi a residência dos reis da França de 1682 até a Revolução Francesa em 1789. Subimos as escadarias. Após a riquíssima capela, entramos nos salões e aposentos, todos resplandecentes e superlativos. A Galeria dos Espelhos, um salão com 70 metros de comprimento, é no mínimo deslumbrante.

O Salão dos Espelhos, com 73 metros de comprimento por 10,5
de altura, resplende em ouro, cristais e pinturas no teto abobadado.
Neste salão, em 1919, foi ratificado o Tratado de Versalhes que
encerrou a Primeira Guerra Mundial. Rubens Gonçalves à direita.

            No quarto do rei, fiquei pensando em quão ridículas hoje nos parecem as antigas cerimônias do despertar e do adormecer. É que desde Louis XIV, todas as manhãs os cortesãos entravam no quarto do rei e ficavam respeitosamente contidos pela balaustrada de ouro que separava a cama da vastidão do aposento, esperando que o rei acordasse.

Quarto e cama do Rei-Sol.

            Ao despertar, o soberano era “lavado”, vestido, penteado e, afinal, “montado” pelos servos, com suas rendas e arminhos, enquanto todos observavam em silêncio. A cerimônia do adormecer era justamente o que o nome sugere: todos iam ver o rei ser vestido com o camisolão e esperavam que adormecesse, para então saírem em silêncio do aposento.

Os partos da rainha

            O quarto de Maria Antonieta, a trágica rainha da França, [esposa de Louis XVI], era também de grande esplendor. Ali – outro absurdo – os partos das rainhas eram presenciados pelos cortesãos. As principais personalidades da corte deviam assistir ao nascimento dos herdeiros reais porque, segundo a tradição, atestariam a legitimidade do parto. Olhando aquela cama suntuosa [uma réplica], não há como não imaginar Maria Antonieta nela deitada, tornando públicos [certamente contra a sua vontade] os seus momentos íntimos da maternidade.


Quarto e cama da rainha Maria Antonieta.

            Ao eclodir a Revolução Francesa, Maria Antonieta viu, através das janelas daquele mesmo quarto, o povo atravessar o Pátio de Mármore e invadir o palácio. Começava ali o seu calvário ao lado do rei Louis XVI, que culminaria com a morte de ambos na guilhotina.

O “Hameau” da rainha

            Saindo do palácio, tomamos um “trenzinho” que nos levou através dos jardins até ao Petit Trianon, donde seguimos a pé em direção ao Hameau de Maria Antonieta. O Hameau (pronuncia-se “Amô”) é uma aldeia composta de oito casas rústicas que a rainha mandou construir bem longe do palácio, para funcionar como uma espécie de “casas de bonecas”, mas em tamanho natural, para o prazer e entretenimento da soberana.



Quando a rainha Maria Antonieta ia ao Hameau,
esta era a casa que ela ocupava. Era a maior de todas.

Uma "casa simples" de camponeses, ocupada pelos cortesãos 
da confiança da rainha. Esta era uma das hortas onde Maria 
Antonieta "trabalhava" (brincava) com roupas de camponesa. 

            Naquela falsa aldeia, a rainha e um pequeno grupo de nobres da sua confiança vestiam-se com trajes de camponeses, e ela “brincava” de ser aldeã. Todos eles mexiam nas hortas, faziam queijos, colhiam ovos e apreciavam os gordos porcos e outros animais.

Outra falsa casa de camponês. Atrás da cerca onde Rubens
Gonçalves se apóia, vêem-se os gordos porcos, como no
tempo em que a rainha "brincava" no seu Hameau.

Uma pequena galinha escapa do galinheiro, mas é muito
mansa e se deixa tocar por Souto Neto.

Detalhe da foto anterior, mostra Souto Neto
tocando a crista da pequena galinha mansa.

            Aparentemente, Maria Antonieta sentia falta de uma vida mais simples, longe da extrema riqueza do palácio. Para alguns, isso soa como um paradoxo. Eu, particularmente, sempre senti um misto de perplexidade e pena dessa rainha. É que naquele momento e naquele país, as mulheres, mesmo as rainhas, pouco podiam influir na vida política. Parece-me que se Maria Antonieta nada fez em prol do povo, também nada fez contra o mesmo. Alienada, isto sim, ela divertia-se na horta do seu Hameau, ou decorava papeis para representar outras pessoas em seu pequeno, mas luxuoso teatro particular do Petit Trianon. Vivia fantasias sem compreender, em profundidade, a grave situação que envolvia a França, principalmente a fome que grassava entre a enorme população paupérrima. Maria Antonieta, por ser alienada, poderia até mesmo ter merecido a prisão... Mas sua execução na guilhotina foi um ato de cruel exagero.
            O interessante do Hameau é que as casas são mantidas como no tempo em que a rainha ali brincava. As hortas estão regadas, os legumes estão prontos para a colheita, e os robustos porcos muito felizes. O galinheiro está repleto de aves bem nutridas que por ali ciscam alegremente. As casas são encantadoras e singelas. A que era usada pela rainha, voltada para o lago, era a maior de todas.

Os jardins e os visitantes para o jantar

            Do Hameau voltamos a pé para o Palácio de Versalhes, para isso atravessando seus quilométricos jardins repletos de estátuas e elaboradas fontes. Passamos parte da tarde perdendo-nos e reencontrado o caminho em meio aos traçados dos gigantescos canteiros e bosques. O principal espelho d’água é um verdadeiro lago artificial em forma de cruz, com aproximadamente 1600 por 1200 metros de extensão. É tão grande que no tempo dos reis, ali havia barcos navegando unicamente para o prazer do casal real e seus convidados.

Rubens Gonçalves de costas para os espelhos d'água
e lagos dos jardins de Versalhes. No horizonte, muito
longe, avista-se parte do palácio.

Souto Neto nos jardins de Versalhes.

            Ao retornarmos ao palácio, as multidões de turistas tinham desaparecido. Éramos alguns dos últimos a deixar o lugar. Foi quando presenciamos um acontecimento estranho. Vimos que pessoas elegantes desciam de um ônibus e seguiam por uns cem metros sobre um tapete vermelho que se estendia desde a porta do veículo até à entrada do palácio. Estavam trajados a rigor e as mulheres usavam vestidos compridos com muitos brilhos. Apesar de o sol ainda alto, já passava das 21 horas. Pela pompa, pareciam reis e rainhas. Foi quando eu me lembrei de ter lido algo quando estava ainda no Brasil, e imediatamente compreendi que aquelas eram pessoas comuns, que chegavam para um jantar no Palácio de Versalhes. É que para arrecadar mais dinheiro, a administração do palácio instituiu jantares para aqueles que desejam ser recebidos como se fossem reis, por preços que só os ricos – fúteis? – podem pagar.

Visitantes entrando no palácio para o jantar, pisando no
tapete vermelho colocado estranhamente "em cotovelo". 
À direita da foto, os músicos de costas

Neste detalhe ampliado da foto anterior, pode-se ver 
que os músicos tocam de costas para os convidados.

            Sucederam-se uns vinte ônibus repletos de gente chique. Quando o primeiro passageiro descia de cada ônibus na passarela vermelha, uma banda de costas para os visitantes começava a tocar música renascentista, com uns instrumentos de sopro, cujo nome desconheço. Têm eles o “funil” que passa sob o braço do músico e aponta para trás, terminando como se fosse uma grande corneta, daí o fato de os músicos ficarem de costas para os homenageados. Éramos apenas uns vinte turistas retardatários que apreciávamos o espetáculo. Ao nosso lado, uma família japonesa ria-se a ponto de curvar-se sobre a barriga. É que aconteciam alguns incidentes com aqueles “visitantes ilustres”. Por exemplo, um velho senhor que desceu do ônibus apoiado numa bengala, ao pisar no tapete vermelho trazia o paletó dobrado no braço e, de certa forma ansioso, vestiu-o afobada e rapidamente, para isto girando a bengala sobre a própria cabeça e assim quase atingindo o rosto de uma elegante e opulenta senhora que vinha logo atrás. Esta deu um grande pulo para não ser atingida. Nós filmamos um pouco do divertido espetáculo, principalmente porque queríamos guardar de lembrança a magnífica melodia que era produzida pelos interessantes instrumentos musicais.
            Deixando o esplendor de Versalhes, quando passamos pela estátua equestre de Louis XIV, apontei para o palácio e formulei ao amigo a conhecida e já antiga pergunta: “Tudo isto para um só homem?”. Qualquer francês teria a resposta na ponta da língua: “Não! Tudo isto pela glória da França!”.

Souto Neto apontando à estátua do Rei Sol.
- Tudo isto para um só homem?
- Não! Tudo isto pela glória da França.
Ilustrações originais: Foto 1 – A Galeria dos Espelhos. Foto 2 – A casa da rainha no Hameau.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A INSEGURANÇA E AS LÁGRIMAS DO GOVERNADOR por Francisco Souto Neto


 
A INSEGURANÇA E AS LÁGRIMAS DO GOVERNADOR
 Francisco Souto Neto


Jornal do Centro Cívico Ano II – Agosto/2002 – Nº 4
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:



Página 7:




A INSEGURANÇA E AS LÁGRIMAS DO GOVERNADOR
Francisco Souto Neto

            No programa que recentemente o PFL exibiu em rede estadual de rádio e televisão, o governador Jaime Lerner fez uma precoce despedida do cargo. A câmera procurou mostrar, até insistentemente e em close, que os olhos do governador em algumas ocasiões ficaram marejados. Várias pessoas perguntaram-se depois por que choraria o governador. Eu não tive dúvidas: chora pelo Paraná. Pela venda do Banestado  [Pela venda feita por sua própria decisão, ao contrário de suas declarações de que o Banestado não seria vendido – o que foi feito em leilão e a preço vil]. Mas sobretudo pela insegurança que ronda os cidadãos paranaenses. A violência urbana, na capital do Estado, está alcançando um grau aterrador. Exemplifico com alguns ocorridos: eu mesmo fui assaltado no centro da cidade, em plena Rua Visconde do Rio Branco, entre a Carlos de Carvalho e a Saldanha Marinho, às 18 horas de um dia útil. Pior ocorreu numa farmácia situada no bairro Alto da Glória, esquina da Avenida João Gualberto com Rua Mauá, que foi assaltada três vezes numa única semana. Eu soube que no mês passado, os estabelecimentos localizados num raio de cem metros quadrados a partir da referida esquina, sofreram mais de vinte assaltos. Mais escabroso: naquela mesma esquina, às 13 horas do dia 5 do corrente, um cidadão reagiu a um assalto, foi assassinado a tiros, e o criminoso fugiu. O comércio daquela região, incluindo-se as bancas de revistas das redondezas, vive sob permanentes ameaças e atua sob o garrote do medo.
            Nós, cidadãos, não mais queremos ouvir balelas sobre o quanto está ou estará sendo feito pela nossa segurança. O que queremos é ver, concretamente, policiamento ostensivo em toda Capital, também à noite. Ou as autoridades estão à espera de que Curitiba se torne de vez uma nova Rio de Janeiro?
            Compreendo, portanto, de que desgosto chora o governador.

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TEMPESTADE NO OCEANO ÁRTICO E SOL DA MEIA-NOITE por Francisco Souto Neto




TEMPESTADE NO OCEANO ÁRTICO E SOL DA MEIA-NOITE
por Francisco Souto Neto

Folha do Batel Ano 4 – Julho/2002 – Nº 33
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:

Página 5:




TEMPESTADE NO OCEANO ÁRTICO E SOL DA MEIA-NOITE
Francisco Souto Neto

            Em julho de 1995, com o companheiro de algumas viagens ao Exterior, Rubens Faria Gonçalves, fiz um cruzeiro de 14 dias a bordo do Costa Allegra, com início e término em Amsterdã, que teve como maiores atrações o remoto Cabo Norte, na Noruega, e a vulcânica Islândia.

Souto Neto abrindo a porta da cabine 7004

Souto Neto e Rubens Gonçalves
no interior da cabine 7004.

Cabine 7004. Atrás de Rubens Gonçalves está a porta para a sacada.
A porta e as janelas, à altura de 7 andares do nível do oceano,
 seriam "lavadas"  pelas ondas do mar durante a violenta tempestade.
Esta foto foi tirada ao início do cruzeiro, no sul da Noruega,
quanto as noites eram ainda escuras, antes de atravessarmos
o Círculo Polar Ártico e atingirmos a área do sol da meia-noite.

            Na madrugada do sexto dia de navegação, contornamos o Cabo Norte e começamos a rumar para o próximo destino, a cidade islandesa de Akureyri. O percurso do Cabo Norte – que é o ponto extremo norte do continente europeu – à Islândia, duraria dois dias de navegação nas águas quase geladas do Oceano Glacial Ártico. Embora estivéssemos no verão do Hemisfério Norte, naquela região do mundo a temperatura máxima alcançada do auge de tal estação raramente ultrapassa os dez graus centígrados. Ali, dentro do Círculo Polar Ártico, é onde ocorre o maravilhoso fenômeno do sol da meia-noite: o astro-rei não se põe, permanecendo acima da linha do horizonte durante as 24 horas do dia.

A tempestade

            Se alguém, algum dia, fizer uma pesquisa no diário de bordo do capitão do Costra Allegra sobre os eventos ocorridos nos dias 10 e 11 de junho de 1995, atestará que no meu relato adiante não existe qualquer exagero. A verdade é que o navio esteve muito próximo a um naufrágio.
            Embora já tivéssemos vislumbrado no Cabo Norte um tímido sol da meia-noite descobrindo-se e ocultando-se sobre as nuvens persistentes, quando começamos a travessia rumo à Islândia, o mar foi tornando-se agitado, e uma espessa neblina envolveu a nave. Pela manhã do dia 10, forte chuva tomou o lugar da neblina. Na hora do almoço, percebemos que os poderosos estabilizadores do navio não conseguiam impedir o crescente balanço. Os próprios garçons equilibravam os pratos com dificuldade, as pernas teimando em não obedecer ao caminho certo. Interrompemos nosso almoço, pois começávamos a enjoar e dirigimo-nos à nossa cabine. Ao sairmos do restaurante, vimos o constrangimento de uma passageira que passou por nós cambaleante e, sem poder evitar o súbito desastre, curvou o próprio corpo num doloroso gemido, devolvendo o almoço sobre o tapete.
            A tempestade aumentou, transformando o Costa Allegra numa gigantesca gangorra. Deitamo-nos em nossas camas, quando o navio começou a produzir estrondos parecidos com explosões: é que ele era elevado pela fúria das ondas, ficava com a proa no ar e, ao descer com toda força, batia violentamente contra o mar encrespado.

"Navio na tempestade", apontado por Souto Neto, é um painel
que se encontra num dos corredores do Costa Allegra, cujos
passageiros jamais poderiam imaginar durante aquela viagem
teriam que enfrentar uma tempestade muito semelhante.


            Ocupávamos a suíte 7004, a primeira da proa que, à altura de sete andares do nível do oceano, era dotada de uma sacada particular. Pois quando o navio despencava vertiginosamente do seu movimento pendular, as águas do mar varriam a sacada, “lavando” a porta e as três janelas. As cadeiras espreguiçadeiras desmontaram-se. Quando a proa subia, eu observava que meu amigo afundava nos lençóis; quando baixava, ele parecia flutuar sobre a cama. Eu me agarrava com força às bordas do colchão, para não ser atirado ao solo. Objetos caíram dos armários, esparramando-se pelo tapete. Dentro do frigobar, quebraram-se uma garrafa e algumas taças. O televisor que era parafusado sobre uma base móvel em forma de círculo, teve os fios arrancados pela violência dos movimentos e ficou girando como que tomado por poltergeists. A embarcação jogava para todos os lados e não uniformemente como uma gangorra. Tive a sensação de estar sendo liquidificado. Numa das ocasiões em que me levantei para ir vomitar no banheiro, o movimento do navio atirou-me através da cabine. Senti-me “catapultado” porque derrubei a mesa de centro da nossa saleta e caí sobre o sofá, donde engatinhei com dificuldade até ao banheiro.
            Curiosamente, não senti medo nem por um segundo, provavelmente porque o enjôo era tão intenso que anestesiou as outras sensações. Porém, soubemos depois que muitos passageiros acorreram aos salões com seus salva-vidas, temendo por um naufrágio. Até a experiente tripulação enjoou.
            Somente cerca de vinte horas após o início do pesadelo, a tempestade amainou. Meu amigo Rubens, abatido, disse-me: “Quando contarmos o que aconteceu, pensarão que exageramos”. Mas a verdade foi muito mais extraordinária do que poderia conceber a imaginação.

Sol da meia-noite

            Estávamos ainda distantes do final do cruzeiro, mas na noite de 11 de junho, que seria a última dentro do Círculo Polar Ártico, houve a ceia de gala do capitão. Com os músculos e os pulmões doloridos, jantamos moderadamente, como de estivéssemos convalescentes de uma cirurgia... O mar tornou-se plácido e o céu mostrou-se sem nuvens.

Souto Neto em foto tirada à meia-noite, para
memorizar o brilho quase horizontal do sol.

Rubens Gonçalves com o sol da meia-noite no horizonte.

Souto Neto no convés, observando o sol da meia-noite.

            Tivemos um maravilhoso sol à meia-noite, com o astro-rei brilhando como ouro acima do horizonte. Do convés, apesar do frio, as senhoras idosas olhavam placidamente ao espetáculo, com as pedrarias e os brilhos dos seus vestidos longos ao vento, refletindo o dourado daquele magnífico céu que não anoitece. Todos perdiam-se na contemplação ao sol, como querendo esquecer os horrores vividos há tão poucas horas...

Souto Neto cumprimentando o capitão do navio.

            Vimos o capitão passeando pelo tombadilho e notamos que ele era olhado por todos com admiração. É que não restam dúvidas de que, ao comandar com segurança o navio através da tempestade, ele evitou que nos transformássemos numa trágica notícia...

Em noite de jantar de gala, Souto Neto
entre duas esculturas de gelo.

            Aproximávamo-nos da Islândia. Agora, tudo era paz e beleza outra vez!

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

ISLÂNDIA, TERRA DO GELO E DO FOGO por Francisco Souto Neto



ISLÂNDIA, TERRA DO GELO E DO FOGO
por Francisco Souto Neto

Folha do Batel Ano 4 – Junho/2002 – Nº 32
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Capa:



Página 5:




ISLÂNDIA, TERRA DO GELO E DO FOGO
Francisco Souto Neto

            A Islândia, cuja área corresponde à metade do Paraná, é uma república insular totalmente vulcânica. Lá existem cerca de 200 vulcões, dez por cento dos quais ativos, e incontáveis gêiseres. Isto acontece porque o país fica sobre uma falha tectônica do planeta, onde as placas continentais da América do Norte e da Europa se chocam. A ilha da Islândia está situada entre o Atlântico Norte e o Oceano Glacial Ártico. Embora a uma distância de somente 300 quilômetros da Groenlândia (América do Norte), ela é considerada como o país mais ocidental da Europa e, além disso, parte da Escandinávia, isto porque sua população de apenas 279.000 habitantes é formada por descendentes de noruegueses e celtas. Seu extremo norte toca o Círculo Polar Ártico. No auge do verão, a temperatura média fica por volta dos 10 graus centígrados, e o sol não se põe totalmente: ele apenas resvala sob o horizonte, assegurando a permanência da luz e da claridade durante as 24 horas do dia. No inverno a situação se inverte, pois a temperatura cai a dezenas de graus negativos e só há um pouco de claridade entre as 10 e as 14 horas, ocasião em que o sol apenas “arranha” o horizonte islandês.

Os gêiseres

Souto Neto e, atrás, o pequeno gêiser Smidur.

            Viajei à Islândia em companhia do professor e psicólogo Rubens Faria Gonçalves. Uma vez em solo islandês, apressamo-nos em fazer um passeio à área vulcânica dos gêiseres, distante cerca de 80 quilômetros de Reykjavík (108.000 habitantes), a capital do país. A localidade chama-se Geysir, onde se localiza o gêiser mais ativo do mundo, o Strokkur, que entra em erupção a cada de três a cinco minutos.

Atrás de Souto Neto, o Grande Geysir em repouso.

            A poucas dezenas de metros do Strokkur, encontra-se o chamado Grande Geysir, com sua imensa cratera fumegante, que está em repouso há anos. Ele é chamado de “o avô de todos os gêiseres”, porque sua denominação transformou-se no substantivo que dá nome a todos os gêiseres do mundo. Em islandês, “geysir” significa “fúria”.

Às costas de Rubens Gonçalves, o
gêiser Strokkur entrando em erupção.

Momentos depois, o Strokkur completa
a sua erupção de 30 metros de altura.

            A água do Strokkur é ejetada a 30 metros de altura (tanto quanto um prédio de dez andares) e a uma temperatura de 140 graus centígrados. Embora o Strokkur se constitua no mais notável dos fenômenos do local, nada para mim se compara às pequenas crateras, verdadeiros “filhotes de gêiser e de vulcão”, com cerca de apenas uns 30 centímetros de diâmetro, às vezes ainda bem menores, que ficam borbulhando ruidosamente o enxofre misturado à lama, como se fossem espessos doces de abóbora ao fogo... Cheguei a ajoelhar-me para poder ver, bem de perto, uma cratera borbulhante que não teria mais do que o diâmetro do fundo de uma garrafa.


Souto Neto, de longe, observa
e filma uma cratera fumegante.

            A região é perigosa e existe uma possibilidade, embora remota, de alguma área ceder ao peso da pessoa. Isto já aconteceu no passado, com turistas perdendo a vida ao mergulharem nas massas ferventes.
           
Lavas de Thingvellir

             O livro “Maravilhas do Mundo”, de Rolando Gööck, editado pelo Círculo do Livro, inclui Thigvellir, na Islândia, como uma das 23 maravilhas da Europa e do mundo.
            Para entender-se o significado de Thingvellir, é preciso saber que a Falha Atlântica (o enorme acidente geológico que atravessa o mundo quase de pólo a pólo e que desloca a Europa e as Américas em sentidos opostos) é toda submarina, exceto na Islândia, onde ela aflora e corta – mas não separa – o país.
            Caminhando-se pelo centro da Falha, parece tratar-se, à primeira vista, de um largo caminho entre dois altos paredões verticais de rochas vulcânicas. Na verdade, as forças titânicas do subsolo (isto é, os fluxos de magma) empurram as rochas para cima e para os lados opostos ao mesmo tempo, nos sentidos leste e oeste.

No centro da Falha de Thingvellir, Rubens Gonçalves
aponta as paredes que se alargam quatro centímetros ao ano,
dois para o lado da Europa e outros dois para o lado da América do Norte.

            Tais paredões, talvez com uns 20 metros de altura, parecem fixos... Mas na verdade eles afastam-se e alargam-se a uma velocidade de quatro centímetros por ano. Isto significa que a Islândia cresce dois centímetros anuais para cada lado.

Souto Neto filmando o sinuoso enrugamento
que fez a lava ardente ao resfriar.

            No topo dos paredões, por onde andamos cuidadosamente, pode-se ver o sinuoso enrugamento que o magma ardente fez ao resfriar e solidificar em forma de rocha. É possível correr os dedos pelo relevo e reconhecer, ali, os vestígios da criação do mundo.

Alta civilização

            “Islândia” significa “terra do gelo”. Seria mais justo chamá-la de “terra do gelo e do fogo”. No entanto, apesar de tantas adversidades geológicas, o povo islandês é extraordinariamente bem educado e feliz. A média de homicídios no país é de... apenas dois ao ano! Existem cadeias, mas estão quase sempre vazias. Lá praticamente não se conhece o roubo ou o furto. Ninguém precisa roubar, porque o povo é rico, sem exceções. Basta dizer que aquele país é a segunda renda per capita do mundo. Não há analfabetos. O governo dá prioridade aos assuntos de saúde, educação e cultura. É um país muito próximo da utopia, o mundo perfeito.
            Deixamos a ilha muito impressionados com tudo aquilo que vimos, desde seus vulcões e geleiras, aos gêiseres em erupção. A verdade é que andar por certas regiões da Islândia é o mesmo que caminhar pelo princípio dos tempos, quando as forças do planeta formavam o seu primeiro relevo.

Ilustrações originais: 1 – Atrás de Rubens Faria Gonçalves, o gêiser Strokkur entrando em erupção. 2 – Francisco Souto Neto filmando a lava solidificada de Thingvellir.

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