sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto - DUBAI: OUSADIA, DESLUMBRE E DELÍRIO


Jornal Água Verde – Ano 18 – Dezembro 2008 – Nº 331
Diretor presidente: José Gil de Almeida

Página 13:


Capa:



DUBAI – OUSADIA, DESLUMBRE E DELÍRIO
Francisco Souto Neto


Emirados Árabes Unidos é o nome de um pequeno país debruçado sobre o Golfo Pérsico. Sete emirados formam a nação, cujo território, com apenas 83.600 km² (menor do que a área do Estado brasileiro de Santa Catarina) é um deserto semi-árido, abrandado por alguns oásis. Com uma produção de petróleo insignificante em proporção à dos seus ricos vizinhos, era um país inexpressivo em termos de turismo até muito recentemente.

Projetos ousados

Entretanto, em meados da década de 1980, o xeque (“sheik” em inglês) de Dubai, Mohammed bin Rashid Al Maktoun, concebeu um ambicioso plano para transformar aquela inexpressiva cidade na mais ousada do mundo, em termos de avanços tecnológicos e arquiteturais, de modo a tornar-se pólo de atração turística mundial. E em apenas vinte anos, concretizou projetos absolutamente surpreendentes. O primeiro deles, foi acrescentar área ao território, criando arquipélagos artificiais, como o Palm Islands, em forma de palmeira, para abrigar elegantes vivendas e enormes hotéis. Dois outros arquipélagos muito maiores estão em construção, bem como um quarto conjunto de ilhas com a forma do mapa-múndi, tão grandes que são avistadas do espaço sideral.
A avenida principal cingiu-se de edifícios futuristas que ultrapassam os 60 andares. Até há pouco tempo, o Hotel Burj Al-Arab era o símbolo de Dubai, erguido no mar, com 321 metros de altura, evocando a vela de um barco. Porém, desde 2005 está sendo construindo outro edifício, o Burj Dubai, que em 2009 será inaugurado como o prédio mais notável e mais alto do mundo.

O Burj Dubai

No site oficial do Burj Dubai, consta que no dia 19 de outubro de 2008 o prédio alcançava a altura de 730 metros. Para que se tenha uma idéia comparativa, basta dizer que o Pão de Açúcar tem 396 metros e o Corcovado 710. Portanto, mesmo ainda inacabado, o Burj Dubai já é mais alto do que o pico que ostenta o Cristo Redentor. Quando concluído, o prédio deverá ter 818 metros.
O desenho do Burj Dubai foi feito por Skidmore, Owings e Merrill, os mesmos arquitetos da Sears Towers (no momento o mais alto prédio dos Estados Unidos, em Chicago, com 108 andares e 442 metros de altura) e da futura Freedom Tower de Nova York. Quando concluído, o Burj Dubai será decorado pelo italiano Giorgio Armani, cujo hotel – o Hotel Armani – se instalará nos seus primeiros 37 andares. Do 45º andar ao 108º, haverá aproximadamente 700 apartamentos privados. Os pisos restantes do total provável de 180 andares serão, supõe-se, ocupados por escritórios.
Ao redor do andar térreo do Burj Dubai, constrói-se uma área vastíssima que englobará 30 mil residências, nove hotéis e dezenove torres residenciais com cerca de 40 andares cada.
O Edifício Burj Dubai mantém um site com notícias quase diárias do progresso da sua construção, desde que essa foi iniciada no ano de 2005, e que pode ser consultado em http://www.burjdubaiskyscraper.com/
O que impressiona nos Emirados Árabes Unidos é a pujança e o desejo de crescer e de se superar. Para criar-se um belíssimo e eficiente sistema metroviário (já em construção avançada) bastou ao xeque estalar um dedo. As composições do metrô de Dubai foram concebidas com linhas aerodinâmicas e suas estações lembram naves espaciais da ficção científica. Bem a propósito, não há nada no mundo que se assemelhe tanto aos desenhos das metrópoles imaginadas pelo criador de Flash Gordon, quanto a cidade de Dubai. Em termos de vontade política, essa cidade deveria servir de exemplo aos políticos brasileiros, tão habituados a prometer em tempo de eleições a realização de “grandes” obras (na verdade bem modestas, em relação ao que se vê realizado no mundo) e nada cumprir.
Agora anuncia-se em Dubai a construção de um prédio que superará o Burj Dubai. Será o “Tall Tower Aka Al-Burj”, que terá mais de um quilômetro de altura, mais de 200 andares e será inaugurado em 2020. Dubai é ousadia, é deslumbre, é um delírio arquitetônico.  

Legendas originais: Foto 1 – O arquipélago artificial Palm Islands. Foto 2 – Burj Dubai, ainda em construção, mas já o mais alto edifício do mundo. Foto 3 – Aka Al-Burj, próximo projeto de Dubai: mais de 200 andares, mais de um quilômetro de altura.

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OBSERVAÇÃO ACRESCENTADA EM 14.10.2011:

Ao ser inaugurado em 4 de janeiro de 2010, com 828 metros de altura, o nome do prédio foi alterado para Burj Khalifa.

Burj Khalifa, em 2011
o edifício mais alto do mundo.

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Jornal Centro Cívico: VISCONDE DE SOUTO - ASCENSÃO E "QUEBRA" NO RIO DE JANEIRO IMPERIAL


Jornal Centro Cívico – Ano 6 – Novembro 2008 – Nº 57
Editora Responsável: Elaine C. Bento Prada

Páginas 8 e 9:


Detalhe:


Capa:




Jornal Centro Cívico: VISCONDE DE SOUTO – ASCENSÃO E “QUEBRA” NO RIO DE JANEIRO IMPERIAL.
Francisco Souto Neto


Desde o ano de 2006, eu e minha prima Lúcia Helena Souto Martini, que reside em Paulínia, SP, estamos pesquisando e escrevendo a biografia do banqueiro António José Alves Souto, o Visconde de Souto, nosso trisavô.

A importância do Visconde de Souto

O biografado nasceu em 1813, na cidade do Porto, Portugal, e veio para o Rio de Janeiro em 1829, aos 15 anos. Cinco anos depois estabeleceu-se por conta própria, criando a casa bancária A. J. A. Souto & Cia, conhecida como Casa Souto, precursora dos bancos privados no país. Pelo decreto nº 439, de 24.9.1857, o Souto passou a ser oficialmente o banqueiro da Casa Imperial do Brasil. Ele foi presidente da Beneficência Portuguesa e fundador da Junta de Corretores que deu origem à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Fez parte da primeira diretoria da Caixa Econômica. Era Comendador da Ordem da Rosa até que, em 1862, recebeu o título de Visconde, concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I. Em sua chácara no bairro carioca de São Cristóvão, criou o primeiro jardim zoológico do Brasil, que franqueava à visitação pública. Em 1860, na Fazenda Bela Vista, onde plantava café, o Visconde de Souto mandou construir um oratório, hoje conhecido por “Capela Mayrink”, nome do seu último proprietário.

Capela Mayrink, mandada construir pelo Visconde de Souto
na sua Fazenda Bela Vista. Foto Sílvia Maria Pinheiro Grumbach.

          Pelo casamento dos filhos, aparentou-se com as famílias de Marquês de Olinda (Regente e Primeiro-Ministro do Brasil Imperial), Visconde de Pirassununga, Conde de Ipanema e Euzébio de Queiroz (Senador e Ministro do Império).


O Visconde de Souto, OST de A. R. Duarte, 1890. Acervo da
Beneficência Portuguesa - Rio de Janeiro. Foto por gentileza
de Ney O. R. Carvalho.

A Chácara do Souto, residência oficial do Visconde, confinava com a Quinta Imperial da Boa Vista. Documentos da época atestam que o Imperador frequentava a Chácara do Souto para jogar xadrez com seu anfitrião e amigo.

Dona Maria Jacintha de Freitas Souto,
a Viscondessa de Souto. OST de A. R. Duarte, 1875.
Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.


            Em 1864 a Casa Souto foi à falência, gerando a maior crise da história financeira do país, conhecida como "Quebra do Souto”. Segundo Ney O. R. Carvalho, na página 54 do livro “Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – 150 anos – A História de um Mercado”, com base em outros autores e documentos de posse do Arquivo Nacional, conta que o passivo da Casa Souto equivalia à metade da dívida pública interna do Brasil. A partir do gravíssimo episódio da Quebra do Souto, surgiu o sistema financeiro como hoje o conhecemos, com a separação da emissão de papel-moeda da de notas à vista, ambas então feitas pelo Banco do Brasil. Por ordem do Imperador, foi instaurada uma comissão de inquérito para apontar os culpados pela crise. A conclusão veio em 1866, inocentando o Visconde de Souto. Ele havia saldado quase todas as dívidas, às custas do seu enorme patrimônio pessoal. Reconquistou a confiança pública e continuou trabalhando como corretor de fundos até sua morte, em 1880, aos 66 anos.

Autores e livros já publicados

            Muitos escritores referem-se ao Visconde de Souto como personalidade de seu tempo, e à “Quebra do Souto”, em livros que são marcos da Literatura Brasileira. Citam-no autores como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Visconde de Mauá, Barão do Rio Branco, Afonso Arinos, Ruy Barbosa, Nelson Werneck Sodré, Wilson Martins, Pedro Calmon, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Eduardo Bueno e muitos outros. Mais de 300 livros de inumeráveis autores mencionam o Visconde de Souto e a Quebra do Souto em português, inglês, francês, espanhol, alemão e holandês. Na Bibliografia do livro que estamos escrevendo, essas mais de 300 obras [consultadas até 2008, data deste artigo] vão relacionadas por ordem alfabética dos autores, seguidas do título de cada livro, nome da editora e ano da publicação, com a indicação dos números das respectivas páginas onde o Visconde é mencionado. As mais importantes revistas do Século XIX, Archivo Pittoresco e Semana Illustrada, e jornais de várias épocas, fazem referências ao Comendador e Visconde de Souto.

O Visconde de Souto. Fotografia sem data.
Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

            Os poetas modernistas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, no livro que escreveram em coautoria, “Rio de Janeiro em Prosa & Verso”, lançado pela José Olympio Editora no ano de 1965, preservam a memória do Visconde de Souto no capítulo “Tu passaste por este jardim”, sob o título “O Jardim Zoológico do Souto”, transcrevendo o seguinte, nas páginas 91 e 92:

            “A geração de hoje conhece de nome o Souto – pela notícia que tem da quebra de sua casa bancária, em 1864, arrastando em seu desmoronamento outras casas e bancos e levando a praça à grande crise comercial que tão profundamente a abalou.
O Souto, António José Alves Souto, foi um negociante português que, aqui chegando menino, pelo seu trabalho assíduo e inteligente, reuniu uma fortuna considerável e alcançou um crédito ilimitado.
Tão grande era a confiança que nele se depositava que sua casa bancária, em seu tempo, rivalizava, como carteira de depósito, com o Banco do Brasil, a mais importante instituição bancária do país.
Depositário de uma soma avultadíssima de haveres, mergulhado em inúmeros negócios a que a sua atividade não podia atender a um tempo, a Casa Souto ruiu, ocasionando prejuízos consideráveis no comércio do país e que se traduziram num verdadeiro cataclismo de que ainda hoje se fala com pavor.
Possuidor de grande fortuna, Souto era um espírito liberal e generoso. Tendo construído para sua habitação um belo palacete na Rua Barão de Monte Alegre, em meio a um grande e bem tratado parque, aí organizou um jardim zoológico, onde reuniu, à custa de muito trabalho e grandes despesas, muitas e variadas espécies dos mais interessantes animais do globo. Até um elefante existiu no jardim zoológico do Souto.
Organizado o parque, foi ele franqueado ao público e, durante muito tempo, foi o ponto predileto de reunião e passeio dos fluminenses nos domingos.
Sem as facilidades de locomoção que hoje existem, era a pé, pelo extenso caminho do aterrado, que os caixeiros, que recebiam dos patrões seis vinténs para se divertir nos domingos, iam passear à Chácara do Souto, o que não lhes custava nada”.

            Escritores contemporâneos continuam mencionando o banqueiro português. Eduardo Bueno, no livro “Caixa – Uma História Brasileira”, edição de 2002, narra como o Visconde de Souto ofereceu os salões da sua mansão para que a diretoria recém-empossada da Caixa Econômica, da qual ele fazia parte, tivesse onde realizar as primeiras reuniões:

            “A Caixa Econômica tem suas dívidas para com o Comendador Alves Souto: além de ceder os aposentos de sua residência para cerca de dez reuniões do Conselho, foi ele quem providenciou a mobília da sala da Câmara dos Deputados, no prédio da Cadeia Velha (onde atualmente se ergue o Palácio Tiradentes), na Rua da Misericórdia, onde ficara decidido que a Caixa, na falta de local mais apropriado, iniciaria suas atividades”.

            Lilia Moritz Schwarcz e Lúcia Garcia, no livro “Registros Escravos”, lançado em 2006, revela na página 215 um raro episódio de “generosidade pública”: o Visconde de Souto várias vezes comprou escravos para imediatamente alforriá-los, isto é, para dar-lhes a liberdade por puro humanitarismo.

A Quebra do Souto

            A notícia da Quebra do Souto chegou aos jornais portugueses a bordo do vapor Guienne. De Lisboa foi transmitida a Londres por cabo submarino, tendo o jornal “The Times” divulgado a notícia na página 10 da edição de 17.10.1864 e dias seguintes. Jornais de Nova York (Estados Unidos), Wellington (Nova Zelândia), e Sidney (Austrália) também noticiaram a Quebra do Souto.

            No Brasil, não faltaram anedotas envolvendo a crise. Uma delas, que encontramos em jornais da época e em alguns livros, dizia que a Casa Souto ruíra com tamanha repercussão, que através de todo o Império, da corte aos remotos sertões, até os papagaios não paravam de gritar e repetir: “O Souto quebrou! O Souto quebrou!”...

Documentos históricos

Ao escrevermos “Visconde de Souto – Ascensão e ‘Quebra’ no Rio de Janeiro Imperial”, decidimos manter incólume a linha da realidade. Tudo o que estamos relatando tem base documental. E esta não vem apenas das centenas de livros pesquisados, mas sobretudo de documentos arquivados em instituições como: Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Cúria Metropolitana, IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e outros.

Além de resgatar a figura do Visconde de Souto, o livro será um guia para melhor entender a economia brasileira da metade do Século XIX, explicando o mecanismo que fez nascer as primeiras casas bancárias no Brasil. A obra será prefaciada por Dalmiro da Motta Buys de Barros, ex-presidente do Colégio Brasileiro de Genealogia.
Além da cota que caberá aos patrocinadores do livro, que ainda não temos, este será distribuído gratuitamente a universidades, bibliotecas e pesquisadores de todo o país e alguns no Exterior.

Curitiba, agosto de 2008.

Legendas originais: 1ª foto – Visconde de Souto (acervo da Beneficência Portuguesa – Rio de Janeiro). 2ª e 3ª fotos: – Os autores Francisco Souto Neto e Lúcia Helena Souto Martini.

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Francisco Souto Neto: A CATEDRAL DE ROUEN E A IGREJA DAS PEDRAS QUE CAEM


Jornal do Centro Civico – Ano 4 – Julho 2007 – Nº 43
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 3:


Capa:



Jornal Água Verde – Ano 16 – Novembro 2007 – Nº 315
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 6:


Capa:



A CATEDRAL DE ROUEN E A IGREJA DAS PEDRAS QUE CAEM
Francisco Souto Neto


          Visitei a cidade francesa de Rouen na companhia de Rubens Faria Gonçalves. Ambos desejávamos passar alguns dias na histórica cidade, explorando seus aspectos culturais, principalmente a Arquitetura. Eu, em particular, tinha curiosidade em conhecer os locais historicamente marcados por Joana d’Arc.

          Nós visitamos a sinistra torre em que a santa de Orleans foi torturada, o local – hoje marcado por um canteiro de flores e uma imensa cruz – em que foi morta na fogueira e a igreja onde, anos depois, sua memória foi reabilitada.

A catedral

          Rumamos à catedral, e à medida em que a alcançávamos, eu perdia o fôlego ante a beleza das torres desse obra-prima do gótico francês. Ela é quase um delírio de vários arquitetos da Idade Média que, em diferentes épocas, realizaram suas múltiplas e altíssimas torres desiguais. No ano de 1200 ela sofreu um grande incêndio, e a reconstrução foi financiada pelo famoso João Sem Terra, Duque da Normandia e Rei da Inglaterra. A agulha central é gigantesca, neogótica, em ferro fundido.

          Meu amigo Rubens observou que aquela mistura de tantas torres de diversos formatos e alturas numa fachada retilínea, chegava a ser uma confusão. Concordei, dizendo-lhe: “Para mim, é um forrobodó arquitetônico”. Fomos então contornando a catedral, procurando pela famosa Fachada Oeste, a preferida de Monet, tantas vezes retratada pelo velho mestre impressionista. Monet tinha razão ao dizer que aquele lado da igreja era o seu predileto. Tal fachada é simétrica, com um rendilhado extraordinário e a rosácea magnífica. Rubens gostou demais e disse que, não fossem os excrementos de pombos ali no chão, ele se deitaria para melhor apreciar aquele espetáculo monumental. De tanto olhar para cima, chegamos a sentir-nos tontos. Tiramos muitas fotos do exterior do templo.

As diversas torres da fachada principal da Catedral de Rouen,
um verdadeiro delírio arquitetônico. Foto Souto Neto.

Fachada Oeste da Catedral de Rouen, com duas
torres, era a predileta de Monet. Foto Souto Neto.

          Por dentro, ela não é menos fantástica. Um dos destaques, visto só com visitas guiadas, é o túmulo onde está enterrado o coração de Ricardo Coração de Leão. Acima da lanterna da torre central fica a já mencionada agulha neogótica, cercada de três outras torres secundárias. Falta a quarta torre, que desabou durante um vendaval há cerca de 20 anos, atravessou o teto e caiu quase sobre o altar. Há uma exposição permanente com fotos do estado em que ficou a igreja e do processo da sua restauração.

St. Ouen, a igreja das pedras que caem

          Há na cidade, várias outras igrejas de estonteante beleza. Uma delas é a St. Ouen, cuja construção começou em 1318 e terminou no século 15. Enegrecida pelo tempo, tem toda a fachada interditada e placas que afastam os transeuntes com as seguintes palavras: “PERIGO – PASSAGEM PROIBIDA – QUEDA DE PEDRAS”. Tal como em outra igreja que tínhamos visto na cidade de Honfleur, também desta há blocos imensos que, vez ou outra, se desprendem, espatifando-se no solo. Imaginamos que se por fora estava em total degradação – apesar da beleza extraordinária – o interior deveria estar cheio de teias de aranha e ratos.

Fachada da Igreja de St-Ouen.

À esquerda, a prefeitura de Rouen. À direita, o
lado norte da Igreja de St-Ouen.

Lado sul da Igreja de St-Ouen. A placa branca adverte:
"ATENÇÃO: PASSAGEM PROIBIDA. QUEDA DE
PEDRAS". A parede negra, atrás de Francisco Souto
Neto, é de pedras encardidas pela passagem dos séculos.


Atrás de Rubens Faria Gonçalves, os fundos da Igreja
de St-Ouen, onde as pedras estão limpas, restauradas.

          Contornando a igreja, vimos que pessoas entravam nela por uma porta lateral, onde não havia placa de perigo ou passagem proibida. Eu me senti muito curioso e entrei, não sem antes dar uma olhadinha para os blocos de pedras acima da minha cabeça, enquanto o desconfiado Rubens preferiu esperar do lado de fora. Que contraste: o interior, grandioso, estava totalmente restaurado, com as paredes limpas, e tudo impecável. A luz penetrava gloriosamente através dos vitrais, caindo sobre o órgão de impressionantes dimensões, e fazendo fulgurar as esculturas folheadas a ouro. Chamei pelo Rubens que entrou, admirado ante o contraste do exterior, que está desmoronando, com deslumbrante interior da igreja.

          Muito em breve, sem dúvida, St. Ouen não será mais a “igreja das pedras que caem”, porque suas paredes exteriores serão também restauradas, as pedras seculares fixadas e o templo brilhará por mais mil anos.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: FLORENÇA, BERÇO DO RENASCIMENTO


Folha do Batel – Ano 5 – Junho 2007 – Nº 82
Diretora-Executiva: Celina S. P. Ribello.

Página 7:


Capa:



Jornal Água Verde – Ano 14 – Junho 2007 – Nº 310
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 22:

Capa:



FLORENÇA, BERÇO DO RENASCIMENTO
Francisco Souto Neto


Estive uma única vez em Florença (Firenze). Numa das tardes, fui à casa onde nasceu Dante Alighieri, e sentei-me no degrau da estreita porta para descansar um pouco e comer um sanduíche que trazia comigo. O movimento de pedestres pela rua era intenso. Observei as pedras do chão e corri os dedos pelo umbral da porta. Pensava, incessantemente, que estava comendo um sanduíche, sentado à porta da casa de Dante, o “divino poeta”, autor da “Divina Comédia”, o apaixonado por Beatriz, que em preciosos versos vem, há séculos, conduzindo os seus leitores através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso...

A porta da casa de Dante Alighieri.
Foto Francisco Souto Neto.

Firenze foi o berço do Renascimento, um movimento de renovação cultural e artística do séc. XV que se espalhou por toda a Europa, mudando o mundo. Pode-se, pois, imaginar quão rica é essa cidade! Além de Dante, os escritores Maquiavel e Petrarca somaram-se a pintores e escultores como Michelangelo, Botticelli e Donatello, para transformar esse lugar na capital artística do mundo.

O melhor de Firenze

Numa cidade tão rica, é muito difícil estabelecer prioridades para visitas. Em todo caso, se o turista tiver poucos dias para visitar Florença, não poderá deixar de conhecer três das dezenas de museus: Uffizi, o Palazzo Pitti e a Galleria dell’Accademia. Impossível enumerar os tesouros contidos nos referidos museus, pois é como se eles encerrassem o próprio Universo. Estão ali algumas das principais obras-primas dos mais importantes pintores e escultores de toda a História. Mas o Museu Bargello, também indispensável, é considerado o segundo mais importante da cidade, superado apenas pela Uffizzi.
O Duomo é a catedral de Florença, a quarta maior igreja da Europa e o mais alto edifício da cidade. O campanário, ao lado do Duomo, com 85 metros de altura, foi projetado por Giotto em 1334. E o Batistério, uma construção octogonal na frente da igreja, tem o teto decorado com mosaicos coloridos do séc. XIII. Os famosos portões de bronze do Batistério foram encomendados em 1401 para comemorar o fim da peste na cidade. Após trabalhar por 21 anos no portão norte, Ghiberti recebeu a encomenda do portão leste, apelidado depois por Michelangelo de “Portão do Paraíso”.
Outras igrejas são também fantásticas, como a Orsanmichele, Santa Croce, San Lorenzo, e Santa Maria Novella, dentre tantas outras. As capelas Médici e Brancacci também são notáveis.
Mas a cidade, ela própria, é um monumento! É maravilhoso andar pela Piazza della Signoria e pelos arredores da Piazza della Repubblica admirando as construções... Que dizer, então, da Ponte Vecchio, que desde 1354 cruza o rio Arno, com suas lojas de três andares, sobre as quais foi construído o Corredor Vasariano? O corredor tem 800 metros de comprimento, e serpenteia sobre a cidade a 12 metros de altura.  Foi feito em 1565 para que a Família Médici circulasse entre os seus palácios (Uffizzi e Pitti) sem ter que se misturar ao povo, cruzando, a grande altura, várias ruas de Florença e o telhado da Ponte Vecchio, e era (como continua sendo) todo decorado com obras de arte. Tive a oportunidade de atravessar seus 800 metros, indo do Palácio Pitti à Galeria Uffizi.

Antigo cartão-postal de Florença, que mostra o Corredor
Vasariano (telhado à direita, abaixo, que acompanha a
margem do rio, passa sobre a Ponte Vecchio e segue
para a outra margem), unindo os palácios Uffizi e Pitti.

Quando, no mês passado, recebi a visita da crítica de arte Adalice Araújo e da artista plástica Heliana Grudzien, conversamos longamente sobre Firenze, onde Adalice residiu quando jovem, para ali aprimorar-se no ofício da Arte. Sempre que penso em Firenze, vem-me à mente a minha amiga crítica de arte. E a frase que invariavelmente se forma em meu pensamento é: “Que privilégio é ter vivido e estudado em tão fascinante cidade”!

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Francisco Souto Neto: BONDE EUROPEU E BONDE CURITIBANO, VERDADES E MENTIRAS


Jornal do Centro Cívico – Ano 4 – Abril 2007 – Nº 40
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 11:

Capa:



Jornal Água Verde – Ano 15 – Maio 2007 – Nº 309
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 22:


Capa:




BONDE EUROPEU E BONDE CURITIBANO, VERDADES E MENTIRAS
Francisco Souto Neto


Tanto as grandes cidades europeias quanto as de médio porte costumam contar com excelentes sistemas de metrô. Os bondes tradicionais, trafegando nas ruas, não se tornaram anacrônicos, pois continuam sendo importantíssimo meio de transporte coletivo. Algumas cidades, como Roma, suprimiram algumas linhas, porém modernizaram outras, introduzindo bondes maiores e melhores.
No interior da França, por exemplo, são inúmeras as cidades que continuam utilizando os bondes. Em Strasbourg (ou Estrasburgo), onde estive há pouco tempo, a prefeitura inaugurou um dos sistemas mais modernos do mundo. As composições de dois vagões geminados, contando com imensas janelas e portas, e com a cabine de comando que se assemelha a um foguete futurista, têm o piso à altura da calçada. Isto quer dizer que o passageiro entra na composição sem subir degraus. Para uma cadeira de rodas, por exemplo, não há qualquer obstáculo.

Parodiando "O Grito" de Munch, Francisco Souto Neto brinca
de estar recebendo um "choque cultural" ao ver o futurista
bonde de Strasbourg, na França, um exemplo de
transporte coletivo bonito, confortável e eficiente.

Francisco Souto Neto e os bondes de Strasbourg: um
século à frente do transporte público coletivo do Brasil.

O bonde é infinitamente melhor do que o ônibus, por motivos óbvios: ele segue sempre pela mansidão dos trilhos, sem os constantes ziguezagues comuns aos ônibus; é silencioso, a velocidade é alcançada suavemente e não há curvas bruscas, daquelas que, nos ônibus brasileiros, amontoam os passageiros que se espremem pelos corredores.
Portugal, Itália, França, Alemanha, Suíça, Áustria, Finlândia, Suécia, Noruega... são inumeráveis os países que continuam usando bondes e modernizando-os continuamente.

O bonde curitibano

Justamente por saber como é bom e confortável usar bondes, fiquei muito feliz quando Jaime Lerner, numa das suas gestões como prefeito de Curitiba, anunciou que implantaria o que chamou de “bonde moderno”. Na época eu era um entusiasta das boas ideias do prefeito, tido então como “um administrador e não um político”, e aplaudi entusiasticamente a novidade. Um desenho do bonde curitibano, que entre o Passeio Público e a antiga Estação Ferroviária trafegaria em túnel abaixo do nível da rua como um pré-metrô, serviu para ilustrar a capa do carnê do IPTU daquele ano, distribuído a todos os proprietários de imóveis da capital do Paraná.
Tanto acreditei no projeto que, ao receber da conhecida colunista Iza Zilli um honroso convite para colaborar com um artigo para o seu livro “Cartas a Curitiba”, escrevi um texto que exaltava aquele compromisso de Lerner com o cidadão curitibano. E viva o bonde! O livro foi lançado em meados dos anos 80 com o sucesso que é habitual às publicações da respeitada colunista.
Mas quanto ao meu artigo, só depois percebi que eu enaltecia nada mais do que vãs promessas eleitoreiras. O projeto do bonde desfez-se em nuvens. Os curitibanos esqueceram-se do episódio? Eu não me esqueci. Foi aí que começou a minha decepção pelo referido ex-prefeito, decepção esta que culminou anos depois com a quebra do Banestado, episódio de sobejo conhecido e lamentado, quando alguns diretores do banco oficial paranaense (homens da confiança de Lerner nas suas gestões de governador do Estado), promoveram o chamado “Escândalo Banestado” de tão triste memória.
Para mim, bonde e metrô são um a extensão do outro. Agora, pela milésima vez, anuncia-se a construção do metrô curitibano. Dá para acreditar? Não. Tornei-me cético dos governantes que vêm acariciar nossas esperanças com falsas promessas eleitoreiras. Infelizmente, neste triste país a mentira e a corrupção (como a que se vê em Brasília) grassam cada vez mais e em dimensões que começam a assustar. Até quando os curitibanos esperarão por um transporte coletivo decente? Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?

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domingo, 9 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: ZERMATT E O MATTERHORN


Jornal Água Verde – Ano 14 – Março 2007 – Nº 307
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 6:


Capa:



ZERMATT E O MATTERHORN
Francisco Souto Neto


A estação de inverno de Zermatt, na Suíça, situa-se quase aos pés do Matterhorn, um pico com 4.478 metros de altura, que tem sido a meca dos alpinistas de todo o mundo.
O cume do Matterhorn marca a fronteira da Suíça e da Itália, o que equivale a dizer que a montanha pertence metade à Suíça, metade à Itália. No lado italiano tem o nome de Monte Cervino. Porém, é no lado suíço que se avista seu ângulo mais famoso, conhecido em todo mundo até como embalagem de chocolate.

Particularidades de Zermatt

O esqui pode ser praticado durante todo o ano nos arredores de Zermatt, mas no auge da primavera e verão o lugar é também ótimo para caminhadas através de trilhas muito bem sinalizadas, acessíveis a todas as idades.
Chegamos a Zermatt num mês de primavera, viajando a bordo do Glacier Express, um trem com janelas panorâmicas no teto, que permitem aos passageiros apreciar a paisagem como um todo, incluindo o topo nevado das montanhas.
Na cidade não circulam carros convencionais, que são ali proibidos. São permitidos somente carros elétricos, uns veículos minúsculos, lentos e silenciosos. Chegando à estação ferroviária, encontramos uma parede repleta de telefones particulares, ligados individualmente a cada um dos diversos hotéis da cidade. Tínhamos feito reserva, quando ainda no Brasil, para uma estada de cinco dias no Hotel Dom. Seguindo instruções do próprio hotel, logo encontramos o telefone pertencente ao mesmo, e liguei informando da nossa chegada. Em poucos minutos o carro elétrico do hotel foi buscar-nos na estação ferroviária, e logo depois nos instalávamos num dos apartamentos com a sacada voltada para o Matterhorn.

Francisco Souto Neto em Zermatt, na Suíça.
Ao fundo, o pico do Matterhorn.

Rubens Faria Gonçalves em Gornergrat.
No horizonte, o Matterhorn.

Em Gornergrat, Souto Neto com Matterhorn às costas.

Em Zermatt há trens de cremalheira e teleféricos que levam a vários pontos acima da cidade, um dos quais Gornergrat, onde há um observatório astronômico ao lado de um complexo de restaurantes e lanchonetes, um lugar nevado mesmo no auge do verão, donde se tem uma das mais belas vistas do Matterhorn. Outro passeio interessante é ao pico Sunnegga, alcançado através de um metrô, o segundo metrô alpino que foi construído na Suíça, denominado, muito apropriadamente, “Metrô Sunnegga”. Em questão de minutos, o trem sobe em plano inclinado dentro de um túnel e em grande velocidade até ao topo da montanha, de onde é possível retornar a Zermatt através duma trilha que passa por florestas de coníferas alpinas e lagos azuis que refletem as montanhas circundantes, dentre as quais o próprio Matterhorn, que é a chamada “montanha da casa”.
Embora estivéssemos no começo da primavera e fizesse algum calor, na nossa última noite em Zermatt a temperatura deu uma grande guinada, e amanheceu nevando pesadamente. Isto me fez ver que a propaganda da cidade, que dizia “Zermatt – Sun and Snow” (“Sol e Neve”), justificava-se plenamente.

Matterhorn e morte

Uma visita ao cemitério de Zermatt torna bem evidente que o Matterhorn, mesmo sendo uma das mais belas montanhas do mundo, tem uma história ligada a muitas mortes trágicas. Há dois séculos, desde que os primeiros alpinistas tentaram escalar a referida montanha, já houve centenas de mortes em cruéis acidentes. Muitos desses homens que perderam a vida na montanha, estão enterrados no cemitério de Zermatt. As lápides trazem tristes registros em vários idiomas, como espanhol, alemão, francês e outros, sempre fazendo alusão aos jovens “mortos pelo Matterhorn”: uns na face leste da montanha, outros quando já desciam e foram surpreendidos por uma tempestade, e assim por diante.
Deste modo, a maravilhosa montanha nos leva a uma reflexão sobre a vida e a morte. E a seus pés sucedem-se gerações e gerações de visitantes, uns com o objetivo de conquistá-la, outros com o propósito de contemplá-la de longe, respeitosamente, mas todos sempre movidos pela paixão. A visão da silhueta dessa montanha-rainha não deixa indiferente nem aos mais insensíveis.
As pessoas que gostam de viajar pela Suíça, na verdade buscam a visão dos seus vales floridos, dos lagos e rios de águas extremamente limpas, e dos cumes nevados das montanhas. Cada uma dessas montanhas tem sempre algo de especial, como o Jungfraujoch (a mais alta de todas), o Niesen, o Rigi, o Eiger, o Monch... Mas nada se compara ao fascínio e diáfana beleza que emanam do Matterhorn.

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