sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: UM PASSEIO À CASA E AOS JARDINS DE CLAUDE MONET

Jornal Água Verde Ano 13 – Novembro 2004 – Nº 280
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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Página 6:



Folha do Batel Ano 6 – Dezembro 2004 – Nº 54
Diretora-executiva: Celina S. P. Ribello

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Página 6:



UM PASSEIO À CASA E AOS JARDINS DE CLAUDE MONET
Francisco Souto Neto


Quando, recentemente, eu e meu companheiro de viagem Rubens Faria Gonçalves passamos uns dias em Rouen, na França, para entre outras coisas, conhecer os lugares onde ocorreram a prisão e a morte de Joana d’Arc na fogueira, aproveitamos a oportunidade para realizar uma pequena viagem a Giverny, com o objetivo de conhecer a casa e os deslumbrantes jardins do artista plástico impressionista Claude Monet.
Fizemos o percurso da seguinte maneira: primeiro viajamos de trem até Vernon, cujo trajeto demora exatamente 40 minutos. De lá, tomamos um táxi até Giverny, em cujos arredores localiza-se a antiga propriedade de Monet.

Perfil de Monet

O pintor francês Claude Monet nasceu em Paris em 1840 e faleceu em Giverny em 1926, aos 86 anos. Ele e alguns outros artistas franceses estabeleceram as bases do impressionismo com uma pintura revolucionária para os padrões da época: nas suas pinceladas, eles passaram a ater-se mais à qualidade da atmosfera e da luz, e menos na precisão da imagem propriamente dita. Monet, mais particularmente, dedicou-se a temas fluídos e tratou em cores vibrantes e claras os efeitos luminosos do ar e da água. As flores do seu jardim foram pintadas como que em explosões de cores e luzes.
Em 1883 Monet já estava instalado na sua propriedade de Giverny, onde plantou o extraordinário jardim em frente à casa, hoje transformada em museu.
Ele teve a sorte de conhecer o sucesso em vida. Costumava receber convidados para o jantar, e mostrava-se exigente, comme il faût, em termos de horários e de disciplina: assim, mesmo aos mais íntimos amigos não dispensava pontualidade à mesa.

A casa

A fachada da casa, muito extensa, pintada em cor-de-rosa e com janelas verdes, é coberta de roseiras e trepadeiras. Começa-se a visita pelo atelier do artista, que exibe apenas cópias dos quadros, cujos originais estão nos mais importantes museus do mundo. Vimos, numa das paredes, uma foto de Monet no Le Mont-Saint-Michel, exatamente no lugar onde eu e Rubens Gonçalves tínhamos estado alguns dias antes.


Francisco Souto Neto nos jardins da casa de Claude Monet.

Rubens Gonçalves nos jardins da casa de Claude Monet.

Rubens Faria Gonçalves na escada para a porta de entrada da casa de Monet.

Souto Neto na varanda da casa de Monet.

As cores do interior da residência são também aquelas que Monet apreciava. O cômodo que mais me impressionou foi a cozinha, de paredes amarelas e lindos azulejos, com móveis provençais franceses, e panelas e demais utensílios, creio que de cobre, com brilho impecável, pendurados em ganchos nos armários.
Subimos as escadas e conhecemos os quartos e banheiros. Retornando às salas do andar térreo, pusemo-nos a imaginar as maiores celebridades daquela época e os mais importantes artistas plásticos do mundo ali reunidos.

Os jardins

Se a casa encanta, que dizer dos jardins? Eles estendem-se por uns 200 metros abaixo e são de uma exuberância inenarrável. Atualmente estão divididos ao meio por uma estrada, mas a comunicação por ambas as partes faz-se através de um túnel particular para pedestres, que passa sob referida via pública.
A parte de baixo tem um lago coalhado de lírios d’água, sobre o qual está a ponte chinesa de cor verde que Monet imortalizou em tantas telas. Ali também passa um riacho com não mais do que dois metros de largura, mas aparentemente profundo e – o que é impressionante – de águas muito rápidas. Tal riacho corre ao nível dos jardins, sem barrancos laterais, o que ajuda a criar a sensação de um lugar mágico, sem paralelo no mundo.


Pintura de Claude Monet mostrando a ponte chinesa e lírios d'água.

Souto Neto na ponte chinesa dos jardins de Monet.


Rubens Gonçalves, tendo ao fundo a ponte chinesa,
e o lago com os lírios d'água.

Lírios d'água do lago de Monet.

Rubens Gonçalves filmando as flores dos jardins de Monet.

As flores são extraordinariamente variadas e nascem de todos os lados, ora formando alamedas, ora fechando-se em caramanchões, ora espalhando-se pelos caminhos e misturando-se numa amálgama quase irreal de tipos e cores.
Após algumas horas de verdadeiro encantamento, deixamos a antiga propriedade de Monet e retornamos a Rouen, com a certeza de termos conhecido um dos lugares mais belos do planeta.

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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: O velho Português e o português da esquina, ou ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O IDIOMA PÁTRIO

Jornal Água Verde Ano 13 – Novembro 2004 – Nº 280
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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Página 7:


Folha do Batel Ano 6 – Dezembro 2004 – Nº 54
Diretora-executiva: Celina S. P. Ribello

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Página 10:


  O velho Português e o português da esquina,
ou
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O IDIOMA PÁTRIO  
Francisco Souto Neto (*) 


O título é quase um trocadilho. Em verdade, quando me refiro ao Português com P maiúsculo, estou aludindo ao idioma pátrio, isto é, à Língua Portuguesa. Mas ao usar o p minúsculo, faço referência àquele senhor, o cavalheiro da casa da esquina, que nasceu em Portugal.
Do mesmo modo, se digo que vou para o exterior, é porque estou indo para o lado de fora da minha casa; mas se vou para o Exterior, é porque pretendo viajar para outros países.
Como o idioma é vivo, ele vai mudando com a passagem do tempo. Aquilo que na escola da minha infância era incorreto, hoje pode ser certo ou aceitável. Assim é que as mais respeitadas revistas do Brasil, tais como Veja e Istoé, e também alguns dos melhores jornais, adotaram “português”, com minúscula, como sendo o nosso idioma, e “exterior” para os países além do Brasil. As pessoas mais conservadoras e muito amigas do vernáculo continuam usando as maiúsculas, enquanto as demais – principalmente as que nem notam tais diferenças – valem-se das minúsculas.
Realmente inadmissível é o erro grosseiro quando perpetrado pelos órgãos de informação, justamente aqueles que deveriam primar pelo correto. Programas dublados na televisão por assinatura, por exemplo, vêm cometendo erros que são verdadeiras ofensas aos ouvidos atentos. No History Channel, que recebo através da TVA, captei as seguintes “pérolas” do programa “Máquina do Tempo: Anjos”, exibido às 21 horas do dia 20 de outubro deste 2004: “Entencionalmente excluíram um grande número de textos judaicos, nos quais os anjos maus e inúmeros anjos com nomes desempenham papéus proeminentes”. Estão lá, aproximadamente aos 40 minutos do referido programa, para quem quiser ouvir, os dois erros grosseiros pronunciados numa única frase. Ao falar de maneira bem clara e explícita, o locutor não sabe que a palavra “intenção” começa com “i” e... duvido que o plural de papel não lhe seja desconhecido, mas fica evidente que não houve um mínimo cuidado por parte dos revisores.
Também o canal People and Arts e o National Geographic Channel têm cometido erros tão primários quanto assustadores. Não precisamos ir tão longe: Glória Maria, a simpática repórter do Fantástico, disse na edição de 7 de novembro passado: “...e os alimentos degenerativo...”, esquecendo-se do “s”. Tal esquecimento de plurais é uma verdadeira praga na televisão. Ao falar “Eles estão muito contente”, pregam o relaxo, o desleixo e a má-vontade no palavreado.
Já escrevi um texto de página inteira sobre o verbo “vim” que encontro, diariamente, fluindo dos lábios de amigos meus, de conhecidos, e de quase toda a fauna da televisão, que vai de Sílvio Santos e Raul Gil aos desconhecidos entrevistados pelas ruas de cidades desde país imenso e descuidado, todos eles dizendo: “você pode vim”, em vez de “você pode vir”, e "se você vim" em vez de "se você vier"!
Poucos têm bastante apuro para reclamar dos erros lidos e ouvidos no dia-a-dia, com faze meu amigo Luiz Alberto, que reclama dos que não conhecem as diferenças do “onde” e do “aonde”... e outros, tais como Rubens, Dönatz, Regina e Robert, que têm pelo Português o raro respeito que este merece.
Ao iniciar este texto, pensava eu em dar algumas regras para que as pessoas aprendessem a falar e escrever melhor. Mas pelo caminho mudei de ideia, acreditando que a única saída para quem não domina o Português é, com humildade e consciência, tomar aulas numa boa escola ou com professor particular. A sugestão é válida até mesmo para os detentores de curso superior, porque é incrível o que há de “doutores” errando no mais primário Português e conjugando o escabroso verbo “vim”!

(*) Francisco Souto Neto é advogado e jornalista.

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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: EM PARIS, GRITOS DE SOCORRO E UMA BOMBA QUE EXPLODE

Jornal do Centro Cívico Ano 3 – Novembro 2004 – Nº 21
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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EM PARIS, GRITOS DE SOCORRO E UMA BOMBA QUE EXPLODE –
Francisco Souto Neto


Nas viagens à Europa, nem sempre tudo são flores. Ocorrem às vezes acontecimentos inteiramente imprevisíveis e até sustos. Eu e meu companheiro de diversas viagens, Rubens Faria Gonçalves, jamais nos valemos dos “pacotes turísticos” e somos nós que projetamos os nossos próprios passeios pelo continente europeu. Foi assim que na mais recente viagem que fizemos à França, passamos uns dias no Mont-Saint-Michel, depois em Honfleur e Rouen. Nosso destino seguinte seria a cidade de Strasbourg. Gostaríamos de fazer uma viagem diretamente de trem de Rouen a Strasbourg, sem passar por Paris, por dois motivos: primeiro, porque a capital da França estava nos nossos planos para o final daquelas férias, quando lá permaneceríamos por quase duas semanas; segundo, porque os trens provenientes de Rouen terminavam a viagem na Gare San Lazare, a oeste de Paris, enquanto que os comboios para Strasbourg partem da Gare de l’Est, estação situada, como o próprio nome o diz, no lado leste da cidade. É que não queríamos usar táxi e também desejávamos poder evitar o percurso de metrô entre as duas estações parisienses, por causa das nossas bagagens.
Mas tivemos, forçosamente, que passar por Paris. Lá, descobrimos que a nova linha “E” do RER (um metrô expresso que leva às cidades da área metropolitana) nos conduziria da Gare de San Lazare diretamente à estação de metrô Magenta, donde alcançaríamos a Gare de l’Este percorrendo à pé cerca de apenas cem metros da Rua d’Alsace.

Gritos de socorro

Arrastando as malas sobre rodas, íamos já pela metade da Rua d’Alsace, quando ouvimos os gritos roucos e apavorados duma mulher: “Au secours! Au secours!” (“Socorro!”). As pessoas da rua olhavam para cima, e localizamos, na janela do 2º andar dum moderno e bom hotel, uma mulher negra com metade do corpo para fora, mas olhando para o interior do quarto e esticando os braços como que para se defender de algo ou alguém. Pareceu que ia ser atirada para fora. Nos andares de cima, pessoas afluíram às sacadas. Um homem atravessou a rua correndo e entrou pela porta do hotel. A mulher desapareceu no quarto, mas ouvimos sua voz rouca a gritar: “Mon Dieu! Mon Dieu!” (“Meu Deus!).
Nunca saberemos o que aconteceu, porque continuamos rumando à Gare de l’Est. Lá chegando, enquanto Rubens Gonçalves ficou no saguão cuidando das nossas malas, fui à sala de informações para me inteirar dos trens para Strasbourg.
Súbito, a polícia invadiu referida sala, determinando que todos deveriam deixar o local imediatamente. De longe, arrastando nossas bagagens, meu amigo me dizia que a polícia mandava todos saírem do saguão. Realmente, aquele enorme espaço estava sendo isolado com cordas vermelhas. Que situação estranha, pensei! Mas de qualquer modo queríamos viajar para Strasbourg e não entendíamos o que estava acontecendo.

Uma das gárgulas (les chimères) da Catedral de Notre-Dame de Paris.

A bomba

Uma policial passou por mim e perguntei-lhe, em francês, quanto tempo demorariam para liberar o local. “Não depende de nós”, foi sua resposta. “Mas o que está acontecendo?”, insisti. E ela, sincera: “Trata-se de uma mala abandonada”. E eu, com uma careta de incredulidade: “Talvez uma bomba?”. Ela apenas sorriu, certamente por causa da minha careta, e afastou-se. Então acercou-se de mim uma senhora simpática, perguntando-me no seu idioma: “Fala inglês?”. “Sim, um pouco”, respondi. E ela: “Vi que o senhor conversou com a policial. Ela disse o que está acontecendo?”. Relatei-lhe o fato, e ela, assustada: “Jesus Cristo! Mas isto é comum acontecer aqui?”. E eu, agora rindo: “Não sei, acho que não”. A bem da verdade, toda aquela agitação me pareceu muito excessiva, e comentei com meu amigo que certamente tinham avistado uma simples mala esquecida e estavam fazendo tempestade em copo d’água.
Sem outra alternativa, mudamo-nos para o extremo oposto da estação, bem longe do local interditado, onde encontramos outro balcão de informações. E no guichê, comecei logo a perguntar sobre os horários de trens diretos para Strasbourg, quando uma imensa explosão sacudiu toda a Gare: BUMMMM! Levei um susto, gritando em português: “Explodiu! Então era verdade!”. O rapaz das informações, em vez de assustar-se, caiu na risada. Estava rindo, é claro, da minha careta de susto.
Logo após a explosão, que apesar de muito alta teve o som meio abafado, embarcamos para Strasbourg. A bordo do trem, anotei todo o incidente no meu diário de viagem, encerrando com estas palavras: “Que Paris! Eu, hem? Eta! Cidadezinha agitada”.
Depois de muitos dias, quando voltamos à capital francesa para lá passarmos quase duas semanas, encontramo-la calma e maravilhosa, sem mais gritos de socorro, nem novas explosões. Paris era, então, a mesma e extraordinária Cidade-Luz de sempre...

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Francisco Souto Neto: PRAGA, A CAPITAL DA REPÚBLICA TCHECA

Jornal do Centro Cívico Ano 3 – Outubro 2004 – Nº 20
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 9:


Capa:




 PRAGA, A CAPITAL DA REPÚBLICA TCHECA
Francisco Souto Neto


Com cerca de um milhão de habitantes, Praga (Praha) é a capital da República Tcheca, país formado em 1993, da divisão da antiga Tchecoslováquia. Fica na Boêmia e é, talvez, a mais bela das capitais europeias, com uma riquíssima arquitetura que impressiona até aos mais insensíveis.
Há mil anos, Praga já era uma cidade próspera. Durante a Idade Média, desfrutou de uma época de ouro, tendo se tornado grandiosa e maior do que Londres e Paris. Sob o reinado de Carlos IV (1347-1378) foi fundada a Universidade de Praga, a primeira da Europa. No século XVIII construíram-se magníficos palácios e igrejas barrocas. Com a Segunda Guerra Mundial veio a ocupação nazista; em seguida, o comunismo cerceou sua liberdade durante 40 anos. Só após a Revolução de Veludo, em 1989, Praga pôde renascer para o mundo em todo seu esplendor.

Rubens Faria Gonçalves entrando na Charles Bridge.

Francisco Souto Neto na Praça Staromestské, ao lado do
Relógio Astronômico de 1338. Ao fundo, a Igreja de Týn.

O Castelo de Praga e a Defenestração

Acima do bairro Malá Strana, situa-se o Castelo de Praga, gigantesca construção que ocupa cerca de 250 por 600 metros de extensão. Dentro de tal complexo, protegidos por alta muralha, estão localizados não somente a Catedral de São Vito, a Basílica de São Jorge e outras igrejas, como também o Palácio Real, o Palácio Lobkowicz e um convento, dentre inúmeros outros itens.
As obras da Catedral começaram em 1344 e foram concluídas por arquitetos e artistas dos séculos XIX e XX.
Quem nunca ouviu falar da Defenestração de Praga? Passeando pelos Jardins Reais, olhei para as janelas do último andar do palácio e me lembrei do episódio que aprendi no colégio, em aula de História: no dia 23 de maio de 1618, mais de cem nobres protestantes invadiram referido palácio, e após violenta discussão com os dois maus políticos que eram os governantes católicos chamados Jaroslav Martinic e Vilém Slavata, atiraram ambos, com o secretário Phillip Fabricius, pela janela leste. Os três resistiram à queda de quinze metros por terem caído em um monte de estrume. Os católicos atribuíram a sua sobrevivência à intervenção divina, mas o incidente deu início à Guerra dos Trinta Anos.

Alquimistas e Kafka

Na parte mais remota do Castelo de Praga localiza-se a Rua do Ouro, também chamada Rua dos Alquimistas. Estão ali pequenas casas encostadas à muralha do Castelo, onde moravam os guardas e arqueiros do rei. No século XVI passaram a residir naquele lugar os alquimistas, por ordem do próprio rei, para que estes fizessem suas experiências visando criar ouro... daí, o nome da rua. Na primeira metade do século XIX, essas pequenas habitações foram residências de estudantes pobres, e na casinha com o nº 22 pintado toscamente sobre a porta de entrada, morou o jovem Franz Kafka. Ali funciona hoje uma pequena livraria. Entrei, corri os dedos pelas paredes e fiquei pensando que aquele lugar tão singelo e apertado deve ter inspirado Kafka a escrever A Metamorfose, romance em que o escritor, transformado em uma gigantesca barata, passeia melancólico pelas paredes e teto do exíguo quarto. Atualmente as casas da Rua do Ouro são galerias de arte, livrarias e antiquários.

Francisco Souto Neto na Rua do Ouro nº 22,
na pequena casa onde residiu Franz Kafka.

Rubens Faria Gonçalves dentro da casa de
Franz Kafka, hoje uma livraria.

Atrações de Praga

As atrações culturais de Praga contam-se às centenas e é até difícil priorizá-las dentro de tamanha diversidade. Vão elas da extraordinária Ponte Charles, do Teatro Nacional de Marionetes, da Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa e do Velho Cemitério Judaico, às praças Wenceslau e Staromestské, à Igreja de Týn, e a incontáveis outros locais.
O Velho Cemitério Judaico, por exemplo, foi o único lugar onde, durante 300 anos, os judeus podiam ser sepultados. Fundado em 1478, nunca pôde ser ampliado, de modo que, por falta de espaço, os mortos eram enterrados uns sobre os outros, em até doze camadas de sepulturas. No total, são mais de doze mil lápides que correspondem a cerca de cem mil mortos. O último judeu a ser ali enterrado, foi Moses Beck, em 1787. Numa sinagoga anexa, em memorial, estão os nomes dos tchecos mortos no Holocausto. Segundo se diz, durante a ocupação nazista Hitler mandou preservar o cemitério porque queria ele integrasse um museu que fizesse alusão “a uma raça extinta”. Hoje, em todo o complexo e arredores há cinco sinagogas, um Museu de Artes Decorativas e a Prefeitura Judaica do século XVI, que celebram a vitória da sobrevivência.

Souto Neto no Cemitério Judeu.

Noutro extremo da cidade, a Igreja Nossa Senhora Vitoriosa exibe a famosa estátua do Menino Jesus de Praga. Tal imagem, num altar lateral de ouro resplandecente, que se diz ser responsável por enorme número de milagres e curas, é uma das mais veneradas do mundo católico.
No centro da capital fica a Praça Wenceslau, chamada de “praça”, mas que é, na verdade, uma extensa avenida com largo jardim central, cercada de alguns dos mais belos edifícios art-nouveau do mundo. Na Segunda Guerra Mundial, os tanques de Hitler desfilaram nessa praça; em 1969 aconteceu naquele lugar a Primavera de Praga e, em 1986, a Revolução de Veludo. Quem, da minha geração, não se lembra do estudante Poloch imolando-se ali em fogo, e morrendo pela liberdade do país? No lugar onde isto aconteceu, bem no meio do jardim ao centro da praça, o povo mantém velas acesas. Quando vi as pequenas chamas, logo percebi que homenageavam a memória dos dois rapazes que foram “vítimas do comunismo”. Duas fotografias de ambos, protegidas por um plástico improvisado, estão colocadas sobre a grama. Filmei um pouco daquele clima de consternação e fiquei observando as velas bruxuleantes ao vento, e as expressões sensibilizadas dos turistas que reverenciavam a História.

Rubens Gonçalves na Praça Wenceslau.

Souto Neto na Praça Wenceslau, no lugar onde morreram
os dois jovens estudantes em 1969, "vítimas do comunismo".

Homenagem aos dois mortos que se imolaram,
"vítimas do comunismo", como lembra a placa.

Haveria muito mais a dizer sobre Praga, mas este texto não teria fim. E é bem esta a realidade das cidades europeias de passado muito extenso e história extremamente rica...

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domingo, 4 de setembro de 2011

TIBÉRIO, UM CÃO EXTRAVIADO por Adriano Justino


OBSERVAÇÃO: Após a publicação da "biografia" do Paco, sugeri ao jornalista Adriano Justino que procurasse conhecer a história do Tibério Bouledogue, que pertence ao meu amigo Rubens Gonçalves. Adriano gostou da ideia e já na edição seguinte do CADERNO ANIMAL, ele também publicava a "biografia" do Tibério:


TIBÉRIO, UM CÃO EXTRAVIADO
por Adriano Justino

Gazeta do Povo – Caderno Animal, Ano II – 2 de outubro de 2004 – Nº 31
Diretor-presidente da Gazeta do Povo: Francisco Cunha Pereira Filho
Coordenação do Caderno Animal: Nádia Fontana

Capa:


Página 6 (inteira):


Página 6 (detalhe):



TIBÉRIO, UM CÃO EXTRAVIADO
Adriano Justino


Há três anos, numa viagem de férias a Paris, o psicólogo Rubens Faria Gonçalves viu pela primeira vez alguns buldogues franceses, que o fascinaram pela fisionomia diferente que apresentavam. “Parecia que eram cachorros-com-cara-de-gente”, afirma. “Foi uma paixão imediata pela raça”, lembra.
De volta ao Brasil, começou a pesquisar canis especializados e, pela internet, encontrou um cachorrinho lindo pelo qual se afeiçoou, mas que era de Porto Alegre. “Comprei por telefone e o bichinho foi embarcado de avião para cá”, diz. Mas, estranhamente, já no Aeroporto Afonso Pena, por volta das 10 horas, o avião chegou, mas o cachorro, não. Depois de horas indo atrás de informações, Gonçalves soube que a “carga viva” havia sido desviada por engano para Salvador e, de lá, para Belém do Pará! “Fiquei imaginando o sofrimento do bichinho, sem comer, preso naquela gaiola de plástico usada para esse tipo de transporte! Só de pensar, eu ficava desesperado”, lembra.
O buldogue francês chegou em sua casa apenas às 22 horas, após diversas conexões e trocas de aviões. “Ao sair da caixa para os meus braços, sujinho, com sede e faminto, o bichinho teve dificuldades para ficar em pé”, recorda ele, que o batizou de Tibério Bouledogue.

Rubens Faria Gonçalves com o seu Tibério Bouledogue.
O cãozinho cresceu forte e alegre e hoje está com 1 ano e 8 meses, espalhando gentileza e esbanjando sensibilidade. “Em nossos frequentes passeios, as pessoas admiram-se e quase sempre formam um círculo ao redor do meu ‘orelhudo’, para fazer perguntas do tipo: ‘Mas que bicho é este?’ ”, diz.
Muitos fazem comparações engraçadíssimas, dizendo que se parece com um morcego, outros com gato, com panda, com pantera, coelho, porquinho e, confirmando a primeira impressão que teve, por várias vezes as pessoas já lhe disseram que ele tem cara de gente.
Segundo ele, Tibério é carinhoso, gosta de descobrir coisas e brincar com outros cães. “Ele adora, por exemplo, correr, saltar, divertir-se com seus amigos caninos naquele gramado atrás do Museu Oscar Niemeyer, no Parcão”, conta.
Adriano Justino

CARACTERÍSTICAS
País de origem: França.
Nome natural: bouledogue français.
Utilização: companhia, guarda e lazer.
História: criado nos bairros populares de Paris no ano de 1880. Nesta época, os cães dos açougueiros e cocheiros dos Halles conquistaram a alta sociedade e o mundo dos artistas pelo seu físico tão exclusivo e seu caráter.
Aparência geral: poderoso para o seu pequeno talhe e atarracado em todas as suas proporções.
Temperamento: sociável, alegre, brincalhão, esportivo e esperto. Particularmente afetuoso com seus donos e com crianças.
Peso: 8 a 14 quilos.
Pelagem: pelo raso, cerrado, brilhante e macio.
Cor: uniformemente colorido, fulvo, tigrado ou não, ou com manchas limitadas, e fulvo tigrado ou não, com manchas médias ou predominantes.
Espaço necessário: pequeno.
Fonte: Confederação Brasileira de Cinofilia.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

PACO RAMIREZ, EL CORAZÓN DE SOUTO NETO por Adriano Justino


PACO RAMIREZ, EL CORAZÓN DE SOUTO NETO
por Adriano Justino


Gazeta do Povo – Caderno Animal, Ano II – 4 de setembro de 2004 – Nº 30
Diretor-presidente da Gazeta do Povo: Francisco Cunha Pereira Filho
Coordenação do Caderno Animal: Nádia Fontana

Capa:



Página 6 (inteira):



Página 6 (detalhe):




 PACO RAMIREZ, EL CORAZÓN DE SOUTO NETO
Adriano Justino


Quando garoto, o jornalista e advogado Francisco Souto Neto derretia-se pelos cães perdigueiros do seu pai, o também jornalista Arary Souto, pelos gatos da irmã Ivone e as galinhas da família, que ficavam no quintal. Muitas das penosas eram “de estimação” e tinham nomes como Funegundas, Dengosa, Birro e Pafúncia. Mas os cães eram os que mais lhe encantavam: o Bopí, Pajé, Patorí, Cacique, Sweet, entre outros.
Depois de adulto, morando em apartamento na capital, afeiçoou-se aos minúsculos chihuahuas, e por 17 anos conviveu com um, o Quincas Little Poncho, que seu irmão havia trazido de Nova Iorque. O cachorro morreu em 1991. “Quincas foi enterrado no jardim, à sombra de um maravilhoso ipê”, lembra Souto Neto.
Nessa época o jornalista resolveu que não teria mais outros cães. Depois disso, começou a ter sonhos constantes com o pequeno Quincas, até que, passada mais de uma década, vencido pela insistência onírica, decidiu-se por “reeditar” o chihuahua. “Antecipadamente, resolvi que o nome do novo bicho de estimação seria Paco Ramirez porque soa mexicano, de onde procede esta raça”, explica.
Com a ideia na cabeça, iniciou uma busca por aquele cãozinho que preenchesse seus sonhos. Começou a visitar canis especializados, onde encontrou um filhote de 2 meses de idade, nas cores branca e dourada. Não teve dúvidas: “Encontrei-o! Este é o Paco Ramirez!”, disse ele, que percebeu na testa uma letra “M” branca sobre a pelagem dourada. “Um M de maravilhoso”, derrete-se Souto Neto.

Paco Ramirez de San Martin no dia da sua chegada, tão pequeno
que quase não aparece nas mãos de Francisco Souto Neto.

O jornalista diz que, com o passar do tempo, Paco revelou-se inteligente, afetuoso e alegre. “Ele late pouco e é festejado pelos vizinhos. Não rói as coisas e é sociável com visitas e cães nos passeios que faz no Centro Cívico e arredores”, diz. “Descobri que Paco Ramirez não foi uma simples reedição do Quincas, mas está sendo uma experiência totalmente nova e rica, tornando a passagem por este planeta muito mais suave e bonita para nós dois”, diz.
Adriano Justino

Paco Ramirez.

Francisco Souto Neto com Paco Ramirez 
CARACTERÍSTICAS
País de origem: México.
Nome natural: chihuahueño.
Utilização: companhia.
Grupo FCI: 9.
História: considerado o menor cão de raça do mundo, dizem que viveu de forma selvagem, na época da civilização Tolteca, onde foi capturado e domesticado por seus habitantes.
Aparência geral: tem a forma de um cão compacto. Seu crânio tem a forma de uma maçã e sua cauda é moderadamente longa e muito alta.
Temperamento: rápido, alerta, cheio de vida e muito corajoso.
Peso: entre 500 gramas e 3 quilos.
Pelagem: curta e longa, brilhante e de textura macia.
Cor: variadas.
Espaço necessário: pequeno.
Fonte: Confederação Brasileira de Cinofilia.

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Francisco Souto Neto: METEORA ENTRE O CÉU E A TERRA

Jornal Água Verde Ano 13 – Setembro 2004 – Nº 278
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 21:


Capa:


Folha do Batel Ano 5 – Setembro 2004 – Nº 52
Diretora-Executiva: Celina Suzy

Página 10:


Capa:



 METEORA ENTRE O CÉU E A TERRA
Francisco Souto Neto


Meteora (também chamada Meteoros, do grego Metéora), no interior da Grécia, é o nome de um conjunto de monastérios bizantinos que remontam aos séculos XIV e XV, erigidos no cume de montanhas muito altas, quase inacessíveis, aos quais os religiosos e eventuais visitantes tinham que ser içados por cordas, dentro de cestos.
Meteora significa “suspenso no ar” ou “entre o céu e a terra”, e está situada na Tessália, que era a pátria dos mitológicos centauros (metade cavalos, metade homens), e a pouca distância do Monte Olimpo, local onde viviam os deuses gregos sob a chefia absoluta de Zeus. O caminho entre o porto de Volos e a pequena cidade de Kalambaka (5700 habitantes), aos pés de Meteora, é muito pitoresco e passa por Lárissa, capital da Tessália. As estradas são excelentes, mas as suas margens estão coalhadas de pequenas capelas que marcam os lugares onde, através dos séculos, morreram viajantes.


Kalambaka, tendo ao fundo as montanhas (ou rochas)
onde se instalaram os mosteiros bizantinos.

Os mosteiros de Meteora eram, na Idade Média, vinte e quatro. Hoje subsistem apenas quatro e construíram-se estradas até ao sopé das montanhas onde estes se localizam, distantes não mais do que uns três quilômetros do centro de Kalambaka. No caminho é possível observar a existência de cavernas encravadas nos paredões verticais das referidas montanhas, a dezenas de metros do solo, que serviam de habitação aos anacoretas ou eremitas, que ali se isolavam do mundo.

Numa parada do ônibus, Souto Neto e as rochas onde
se instalaram os monastérios. Atrás, Kalambaka.

Rubens Gonçalves e algumas das rochas onde estão
as cavernas dos eremitas ou anacoretas.

Ninguém mais é içado por cordas aos mosteiros, pois agora há caminhos margeando as encostas das tais montanhas, e pontes para pedestres entre os cumes, através das quais os turistas podem alcançar alguns dos monastérios.

Os monastérios

Visitei dois monastérios: o de Santo Estêvão e o da Transfiguração, este último mais conhecido como O Grande Meteoro.

Rubens Gonçalves no monastério de Santo Estêvão,
tendo Kalambaka ao fundo.

Monges e monjas vivem naqueles lugares hoje transformados em museus, e subsistem dos altos preços cobrados pelos ingressos e pelas obras de artesanato que vendem. Uma senhora, guia do meu grupo de visita, fez uma explanação sobre a religião ortodoxa grega, e a respeito das pinturas bizantinas, que enriqueceu muito a tudo aquilo que eu já conhecia sobre o assunto. Um fato pitoresco, digno de nota, foi que, enquanto a guia falava, meu grupo de turistas percebeu a aproximação de um monge muito idoso, quase cego, que batia com toda a força a sua bengala no chão, a cada passo miúdo que dava. Chegando à periferia do grupo, esticou o pescoço e avançou o ouvido esquerdo o máximo que pôde na direção àquela que falava. Ela sorriu, como que já acostumada à atitude do velho e simpático monge, justificando: “Ele não ouve bem, mas ainda assim quer saber se eu estou falando a coisa certa”.

O Grande Meteoro

O Monastério da Transfiguração, ou O Grande Meteoro, fundado por Santo Anastácio em 1356, é de acesso muito mais difícil que o anterior. Após centenas de degraus por fora e por dentro da montanha, é quase sem fôlego que até os mais jovens turistas chegam à plataforma rochosa, a 534 metros de altura.
Durante a visita, ouvem-se histórias as mais diversas, como por exemplo, a da severa guardiã do monastério, que foi na infância uma mendiga acolhida pelas monjas.


O Grande Meteoro. Primeiro é preciso descer por uma encosta
(que não aparece na foto), e atravessar a ponte que leva à escada
que entra na rocha (abaixo). É possível ver, à esquerda, abaixo,
pessoas subindo a escadaria, com centenas de degraus, que leva
ao monastério.

Francisco Souto Neto subindo as escadas que levam ao
monastério O Grande Meteoro. No topo da montanha
(ou rocha) atrás, vê-se outro monastério.


Rubens Faria Gonçalves subindo as
escadarias que levam a O Grande Meteoro,
ou Monastério da Transfiguração.

A ira da guardiã e alguns desaforos

Eu observei que os turistas do meu grupo levantavam uma cortina de veludo preto em forma de janela, localizada no fundo do altar, e olhavam demoradamente para dentro. Curioso, fiz o mesmo, pensando que encontraria ali um belo ícone religioso, mas vi que se tratava nada mais do que um espaço quase vazio, empoeirado e feio, com um velho, puído e descorado sofá encostado num canto. Retornei ao meu grupo de turistas e notei que várias outras pessoas formaram fila para abrir a janelinha preta e olhar para dentro. Foi quando surgiu a monja guardiã que, furiosa, enxotou a fila que se formava para levantar a cortina preta e olhar o quartinho poeirento. É claro que ninguém sabia que estava fazendo algo errado, mas a zangada monja bradava em inglês: “É proibido olhar para o fundo do altar!”.
Ao final da visita, já nos jardins do monastério, enquanto admirávamos o panorama, ouvimos um sino que significava que aquele grupo de turistas deveria retirar-se para que outro entrasse. E um monge foi enxotando grosseiramente os retardatários, uns casais idosos. Eu me retirei rapidamente, mas vi que quando saiu o último casal, o monge gritou-lhes algo que ninguém entendeu, e bateu a porta com toda força às costas dos velhinhos.
Pensei assim: estamos num dos lugares mais misteriosos e magníficos do mundo, mas a magia de tudo isso quase se desfaz quando se vê, após pagar muito bem pelos ingressos e pelas compras, que somos todos empurrados rudemente, meio à força, a fim de que um novo grupo de turistas endinheirados entre para enriquecer os monges, e o ciclo da expulsão se repita.

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