terça-feira, 11 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: A CATEDRAL DE ROUEN E A IGREJA DAS PEDRAS QUE CAEM


Jornal do Centro Civico – Ano 4 – Julho 2007 – Nº 43
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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Jornal Água Verde – Ano 16 – Novembro 2007 – Nº 315
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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A CATEDRAL DE ROUEN E A IGREJA DAS PEDRAS QUE CAEM
Francisco Souto Neto


          Visitei a cidade francesa de Rouen na companhia de Rubens Faria Gonçalves. Ambos desejávamos passar alguns dias na histórica cidade, explorando seus aspectos culturais, principalmente a Arquitetura. Eu, em particular, tinha curiosidade em conhecer os locais historicamente marcados por Joana d’Arc.

          Nós visitamos a sinistra torre em que a santa de Orleans foi torturada, o local – hoje marcado por um canteiro de flores e uma imensa cruz – em que foi morta na fogueira e a igreja onde, anos depois, sua memória foi reabilitada.

A catedral

          Rumamos à catedral, e à medida em que a alcançávamos, eu perdia o fôlego ante a beleza das torres desse obra-prima do gótico francês. Ela é quase um delírio de vários arquitetos da Idade Média que, em diferentes épocas, realizaram suas múltiplas e altíssimas torres desiguais. No ano de 1200 ela sofreu um grande incêndio, e a reconstrução foi financiada pelo famoso João Sem Terra, Duque da Normandia e Rei da Inglaterra. A agulha central é gigantesca, neogótica, em ferro fundido.

          Meu amigo Rubens observou que aquela mistura de tantas torres de diversos formatos e alturas numa fachada retilínea, chegava a ser uma confusão. Concordei, dizendo-lhe: “Para mim, é um forrobodó arquitetônico”. Fomos então contornando a catedral, procurando pela famosa Fachada Oeste, a preferida de Monet, tantas vezes retratada pelo velho mestre impressionista. Monet tinha razão ao dizer que aquele lado da igreja era o seu predileto. Tal fachada é simétrica, com um rendilhado extraordinário e a rosácea magnífica. Rubens gostou demais e disse que, não fossem os excrementos de pombos ali no chão, ele se deitaria para melhor apreciar aquele espetáculo monumental. De tanto olhar para cima, chegamos a sentir-nos tontos. Tiramos muitas fotos do exterior do templo.

As diversas torres da fachada principal da Catedral de Rouen,
um verdadeiro delírio arquitetônico. Foto Souto Neto.

Fachada Oeste da Catedral de Rouen, com duas
torres, era a predileta de Monet. Foto Souto Neto.

          Por dentro, ela não é menos fantástica. Um dos destaques, visto só com visitas guiadas, é o túmulo onde está enterrado o coração de Ricardo Coração de Leão. Acima da lanterna da torre central fica a já mencionada agulha neogótica, cercada de três outras torres secundárias. Falta a quarta torre, que desabou durante um vendaval há cerca de 20 anos, atravessou o teto e caiu quase sobre o altar. Há uma exposição permanente com fotos do estado em que ficou a igreja e do processo da sua restauração.

St. Ouen, a igreja das pedras que caem

          Há na cidade, várias outras igrejas de estonteante beleza. Uma delas é a St. Ouen, cuja construção começou em 1318 e terminou no século 15. Enegrecida pelo tempo, tem toda a fachada interditada e placas que afastam os transeuntes com as seguintes palavras: “PERIGO – PASSAGEM PROIBIDA – QUEDA DE PEDRAS”. Tal como em outra igreja que tínhamos visto na cidade de Honfleur, também desta há blocos imensos que, vez ou outra, se desprendem, espatifando-se no solo. Imaginamos que se por fora estava em total degradação – apesar da beleza extraordinária – o interior deveria estar cheio de teias de aranha e ratos.

Fachada da Igreja de St-Ouen.

À esquerda, a prefeitura de Rouen. À direita, o
lado norte da Igreja de St-Ouen.

Lado sul da Igreja de St-Ouen. A placa branca adverte:
"ATENÇÃO: PASSAGEM PROIBIDA. QUEDA DE
PEDRAS". A parede negra, atrás de Francisco Souto
Neto, é de pedras encardidas pela passagem dos séculos.


Atrás de Rubens Faria Gonçalves, os fundos da Igreja
de St-Ouen, onde as pedras estão limpas, restauradas.

          Contornando a igreja, vimos que pessoas entravam nela por uma porta lateral, onde não havia placa de perigo ou passagem proibida. Eu me senti muito curioso e entrei, não sem antes dar uma olhadinha para os blocos de pedras acima da minha cabeça, enquanto o desconfiado Rubens preferiu esperar do lado de fora. Que contraste: o interior, grandioso, estava totalmente restaurado, com as paredes limpas, e tudo impecável. A luz penetrava gloriosamente através dos vitrais, caindo sobre o órgão de impressionantes dimensões, e fazendo fulgurar as esculturas folheadas a ouro. Chamei pelo Rubens que entrou, admirado ante o contraste do exterior, que está desmoronando, com deslumbrante interior da igreja.

          Muito em breve, sem dúvida, St. Ouen não será mais a “igreja das pedras que caem”, porque suas paredes exteriores serão também restauradas, as pedras seculares fixadas e o templo brilhará por mais mil anos.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: FLORENÇA, BERÇO DO RENASCIMENTO


Folha do Batel – Ano 5 – Junho 2007 – Nº 82
Diretora-Executiva: Celina S. P. Ribello.

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Jornal Água Verde – Ano 14 – Junho 2007 – Nº 310
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 22:

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FLORENÇA, BERÇO DO RENASCIMENTO
Francisco Souto Neto


Estive uma única vez em Florença (Firenze). Numa das tardes, fui à casa onde nasceu Dante Alighieri, e sentei-me no degrau da estreita porta para descansar um pouco e comer um sanduíche que trazia comigo. O movimento de pedestres pela rua era intenso. Observei as pedras do chão e corri os dedos pelo umbral da porta. Pensava, incessantemente, que estava comendo um sanduíche, sentado à porta da casa de Dante, o “divino poeta”, autor da “Divina Comédia”, o apaixonado por Beatriz, que em preciosos versos vem, há séculos, conduzindo os seus leitores através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso...

A porta da casa de Dante Alighieri.
Foto Francisco Souto Neto.

Firenze foi o berço do Renascimento, um movimento de renovação cultural e artística do séc. XV que se espalhou por toda a Europa, mudando o mundo. Pode-se, pois, imaginar quão rica é essa cidade! Além de Dante, os escritores Maquiavel e Petrarca somaram-se a pintores e escultores como Michelangelo, Botticelli e Donatello, para transformar esse lugar na capital artística do mundo.

O melhor de Firenze

Numa cidade tão rica, é muito difícil estabelecer prioridades para visitas. Em todo caso, se o turista tiver poucos dias para visitar Florença, não poderá deixar de conhecer três das dezenas de museus: Uffizi, o Palazzo Pitti e a Galleria dell’Accademia. Impossível enumerar os tesouros contidos nos referidos museus, pois é como se eles encerrassem o próprio Universo. Estão ali algumas das principais obras-primas dos mais importantes pintores e escultores de toda a História. Mas o Museu Bargello, também indispensável, é considerado o segundo mais importante da cidade, superado apenas pela Uffizzi.
O Duomo é a catedral de Florença, a quarta maior igreja da Europa e o mais alto edifício da cidade. O campanário, ao lado do Duomo, com 85 metros de altura, foi projetado por Giotto em 1334. E o Batistério, uma construção octogonal na frente da igreja, tem o teto decorado com mosaicos coloridos do séc. XIII. Os famosos portões de bronze do Batistério foram encomendados em 1401 para comemorar o fim da peste na cidade. Após trabalhar por 21 anos no portão norte, Ghiberti recebeu a encomenda do portão leste, apelidado depois por Michelangelo de “Portão do Paraíso”.
Outras igrejas são também fantásticas, como a Orsanmichele, Santa Croce, San Lorenzo, e Santa Maria Novella, dentre tantas outras. As capelas Médici e Brancacci também são notáveis.
Mas a cidade, ela própria, é um monumento! É maravilhoso andar pela Piazza della Signoria e pelos arredores da Piazza della Repubblica admirando as construções... Que dizer, então, da Ponte Vecchio, que desde 1354 cruza o rio Arno, com suas lojas de três andares, sobre as quais foi construído o Corredor Vasariano? O corredor tem 800 metros de comprimento, e serpenteia sobre a cidade a 12 metros de altura.  Foi feito em 1565 para que a Família Médici circulasse entre os seus palácios (Uffizzi e Pitti) sem ter que se misturar ao povo, cruzando, a grande altura, várias ruas de Florença e o telhado da Ponte Vecchio, e era (como continua sendo) todo decorado com obras de arte. Tive a oportunidade de atravessar seus 800 metros, indo do Palácio Pitti à Galeria Uffizi.

Antigo cartão-postal de Florença, que mostra o Corredor
Vasariano (telhado à direita, abaixo, que acompanha a
margem do rio, passa sobre a Ponte Vecchio e segue
para a outra margem), unindo os palácios Uffizi e Pitti.

Quando, no mês passado, recebi a visita da crítica de arte Adalice Araújo e da artista plástica Heliana Grudzien, conversamos longamente sobre Firenze, onde Adalice residiu quando jovem, para ali aprimorar-se no ofício da Arte. Sempre que penso em Firenze, vem-me à mente a minha amiga crítica de arte. E a frase que invariavelmente se forma em meu pensamento é: “Que privilégio é ter vivido e estudado em tão fascinante cidade”!

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Francisco Souto Neto: BONDE EUROPEU E BONDE CURITIBANO, VERDADES E MENTIRAS


Jornal do Centro Cívico – Ano 4 – Abril 2007 – Nº 40
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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Jornal Água Verde – Ano 15 – Maio 2007 – Nº 309
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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BONDE EUROPEU E BONDE CURITIBANO, VERDADES E MENTIRAS
Francisco Souto Neto


Tanto as grandes cidades europeias quanto as de médio porte costumam contar com excelentes sistemas de metrô. Os bondes tradicionais, trafegando nas ruas, não se tornaram anacrônicos, pois continuam sendo importantíssimo meio de transporte coletivo. Algumas cidades, como Roma, suprimiram algumas linhas, porém modernizaram outras, introduzindo bondes maiores e melhores.
No interior da França, por exemplo, são inúmeras as cidades que continuam utilizando os bondes. Em Strasbourg (ou Estrasburgo), onde estive há pouco tempo, a prefeitura inaugurou um dos sistemas mais modernos do mundo. As composições de dois vagões geminados, contando com imensas janelas e portas, e com a cabine de comando que se assemelha a um foguete futurista, têm o piso à altura da calçada. Isto quer dizer que o passageiro entra na composição sem subir degraus. Para uma cadeira de rodas, por exemplo, não há qualquer obstáculo.

Parodiando "O Grito" de Munch, Francisco Souto Neto brinca
de estar recebendo um "choque cultural" ao ver o futurista
bonde de Strasbourg, na França, um exemplo de
transporte coletivo bonito, confortável e eficiente.

Francisco Souto Neto e os bondes de Strasbourg: um
século à frente do transporte público coletivo do Brasil.

O bonde é infinitamente melhor do que o ônibus, por motivos óbvios: ele segue sempre pela mansidão dos trilhos, sem os constantes ziguezagues comuns aos ônibus; é silencioso, a velocidade é alcançada suavemente e não há curvas bruscas, daquelas que, nos ônibus brasileiros, amontoam os passageiros que se espremem pelos corredores.
Portugal, Itália, França, Alemanha, Suíça, Áustria, Finlândia, Suécia, Noruega... são inumeráveis os países que continuam usando bondes e modernizando-os continuamente.

O bonde curitibano

Justamente por saber como é bom e confortável usar bondes, fiquei muito feliz quando Jaime Lerner, numa das suas gestões como prefeito de Curitiba, anunciou que implantaria o que chamou de “bonde moderno”. Na época eu era um entusiasta das boas ideias do prefeito, tido então como “um administrador e não um político”, e aplaudi entusiasticamente a novidade. Um desenho do bonde curitibano, que entre o Passeio Público e a antiga Estação Ferroviária trafegaria em túnel abaixo do nível da rua como um pré-metrô, serviu para ilustrar a capa do carnê do IPTU daquele ano, distribuído a todos os proprietários de imóveis da capital do Paraná.
Tanto acreditei no projeto que, ao receber da conhecida colunista Iza Zilli um honroso convite para colaborar com um artigo para o seu livro “Cartas a Curitiba”, escrevi um texto que exaltava aquele compromisso de Lerner com o cidadão curitibano. E viva o bonde! O livro foi lançado em meados dos anos 80 com o sucesso que é habitual às publicações da respeitada colunista.
Mas quanto ao meu artigo, só depois percebi que eu enaltecia nada mais do que vãs promessas eleitoreiras. O projeto do bonde desfez-se em nuvens. Os curitibanos esqueceram-se do episódio? Eu não me esqueci. Foi aí que começou a minha decepção pelo referido ex-prefeito, decepção esta que culminou anos depois com a quebra do Banestado, episódio de sobejo conhecido e lamentado, quando alguns diretores do banco oficial paranaense (homens da confiança de Lerner nas suas gestões de governador do Estado), promoveram o chamado “Escândalo Banestado” de tão triste memória.
Para mim, bonde e metrô são um a extensão do outro. Agora, pela milésima vez, anuncia-se a construção do metrô curitibano. Dá para acreditar? Não. Tornei-me cético dos governantes que vêm acariciar nossas esperanças com falsas promessas eleitoreiras. Infelizmente, neste triste país a mentira e a corrupção (como a que se vê em Brasília) grassam cada vez mais e em dimensões que começam a assustar. Até quando os curitibanos esperarão por um transporte coletivo decente? Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?

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domingo, 9 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: ZERMATT E O MATTERHORN


Jornal Água Verde – Ano 14 – Março 2007 – Nº 307
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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ZERMATT E O MATTERHORN
Francisco Souto Neto


A estação de inverno de Zermatt, na Suíça, situa-se quase aos pés do Matterhorn, um pico com 4.478 metros de altura, que tem sido a meca dos alpinistas de todo o mundo.
O cume do Matterhorn marca a fronteira da Suíça e da Itália, o que equivale a dizer que a montanha pertence metade à Suíça, metade à Itália. No lado italiano tem o nome de Monte Cervino. Porém, é no lado suíço que se avista seu ângulo mais famoso, conhecido em todo mundo até como embalagem de chocolate.

Particularidades de Zermatt

O esqui pode ser praticado durante todo o ano nos arredores de Zermatt, mas no auge da primavera e verão o lugar é também ótimo para caminhadas através de trilhas muito bem sinalizadas, acessíveis a todas as idades.
Chegamos a Zermatt num mês de primavera, viajando a bordo do Glacier Express, um trem com janelas panorâmicas no teto, que permitem aos passageiros apreciar a paisagem como um todo, incluindo o topo nevado das montanhas.
Na cidade não circulam carros convencionais, que são ali proibidos. São permitidos somente carros elétricos, uns veículos minúsculos, lentos e silenciosos. Chegando à estação ferroviária, encontramos uma parede repleta de telefones particulares, ligados individualmente a cada um dos diversos hotéis da cidade. Tínhamos feito reserva, quando ainda no Brasil, para uma estada de cinco dias no Hotel Dom. Seguindo instruções do próprio hotel, logo encontramos o telefone pertencente ao mesmo, e liguei informando da nossa chegada. Em poucos minutos o carro elétrico do hotel foi buscar-nos na estação ferroviária, e logo depois nos instalávamos num dos apartamentos com a sacada voltada para o Matterhorn.

Francisco Souto Neto em Zermatt, na Suíça.
Ao fundo, o pico do Matterhorn.

Rubens Faria Gonçalves em Gornergrat.
No horizonte, o Matterhorn.

Em Gornergrat, Souto Neto com Matterhorn às costas.

Em Zermatt há trens de cremalheira e teleféricos que levam a vários pontos acima da cidade, um dos quais Gornergrat, onde há um observatório astronômico ao lado de um complexo de restaurantes e lanchonetes, um lugar nevado mesmo no auge do verão, donde se tem uma das mais belas vistas do Matterhorn. Outro passeio interessante é ao pico Sunnegga, alcançado através de um metrô, o segundo metrô alpino que foi construído na Suíça, denominado, muito apropriadamente, “Metrô Sunnegga”. Em questão de minutos, o trem sobe em plano inclinado dentro de um túnel e em grande velocidade até ao topo da montanha, de onde é possível retornar a Zermatt através duma trilha que passa por florestas de coníferas alpinas e lagos azuis que refletem as montanhas circundantes, dentre as quais o próprio Matterhorn, que é a chamada “montanha da casa”.
Embora estivéssemos no começo da primavera e fizesse algum calor, na nossa última noite em Zermatt a temperatura deu uma grande guinada, e amanheceu nevando pesadamente. Isto me fez ver que a propaganda da cidade, que dizia “Zermatt – Sun and Snow” (“Sol e Neve”), justificava-se plenamente.

Matterhorn e morte

Uma visita ao cemitério de Zermatt torna bem evidente que o Matterhorn, mesmo sendo uma das mais belas montanhas do mundo, tem uma história ligada a muitas mortes trágicas. Há dois séculos, desde que os primeiros alpinistas tentaram escalar a referida montanha, já houve centenas de mortes em cruéis acidentes. Muitos desses homens que perderam a vida na montanha, estão enterrados no cemitério de Zermatt. As lápides trazem tristes registros em vários idiomas, como espanhol, alemão, francês e outros, sempre fazendo alusão aos jovens “mortos pelo Matterhorn”: uns na face leste da montanha, outros quando já desciam e foram surpreendidos por uma tempestade, e assim por diante.
Deste modo, a maravilhosa montanha nos leva a uma reflexão sobre a vida e a morte. E a seus pés sucedem-se gerações e gerações de visitantes, uns com o objetivo de conquistá-la, outros com o propósito de contemplá-la de longe, respeitosamente, mas todos sempre movidos pela paixão. A visão da silhueta dessa montanha-rainha não deixa indiferente nem aos mais insensíveis.
As pessoas que gostam de viajar pela Suíça, na verdade buscam a visão dos seus vales floridos, dos lagos e rios de águas extremamente limpas, e dos cumes nevados das montanhas. Cada uma dessas montanhas tem sempre algo de especial, como o Jungfraujoch (a mais alta de todas), o Niesen, o Rigi, o Eiger, o Monch... Mas nada se compara ao fascínio e diáfana beleza que emanam do Matterhorn.

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Francisco Souto Neto: POMPEIA À SOMBRA DO VULCÃO


Jornal do Centro Cívico – Ano 4 – Novembro 2006 – Nº 36
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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POMPEIA À SOMBRA DO VULCÃO
Francisco Souto Neto

O visitante que chega a Nápoles, ao sul da península itálica, não pode deixar de observar o Vesúvio, um vulcão que se eleva a 1277 metros ao fundo da cidade. As construções se estendem ao sopé do vulcão e sobem as suas encostas. Corajoso povo napolitano, pois o Vesúvio é um vulcão ativo que poderá, a qualquer momento, entrar em erupção, como vem acontecendo através de toda a História conhecida.
No ano de 79 da nossa era, o Vesúvio sofreu a sua mais famosa e destruidora erupção, sepultando importantes cidades como Pompeia e Herculano. Na maior delas, Pompeia, morreram mais de duas mil pessoas.
Durante a erupção, os ventos espalharam cinzas e rochas incandescentes para o lado oposto a Nápoles, na direção para onde o vulcão derramou também seus mortais fluxos piroclásticos. Assim, Pompeia e Herculano foram sepultadas com os habitantes e animais que não conseguiram fugir ao cataclismo.

Ao fundo, a silhueta do Vesúvio.

Pompeia e as outras povoações adjacentes ficaram enterradas sob uma camada de vários metros de rochas e cinzas incandescentes. Passaram-se dezessete séculos, tempo em que a terra carregada pelos ventos foi encobrindo o espesso lençol já solidificado, em cuja superfície cresceu densa vegetação. E o local das cidades foi esquecido através de muitas centenas de gerações. Até que em 1748, por acaso descobriu-se a existência da cidade congelada no tempo, quando então começaram as suas escavações.

Pompéia hoje

Muitos prédios resistiram à erupção e permaneceram intactos, assim como estátuas, objetos de decoração e utilitários das vivendas. Até as pinturas murais e as ruas calçadas revivem o passado, revelando que Pompeia era uma cidade de veraneio, muito próspera, onde as famílias ricas mantinham verdadeiras mansões para delas usufruir nas suas férias.
Passear por Pompeia é retroceder dois mil anos no tempo e ver como viviam as pessoas abastadas do Império Romano. A Via dell’Abbondanza (Rua da Abundância) era a principal artéria da cidade, cheia de lojas. Estão lá os bares onde serviam bebidas e pratos preparados, a casa que funcionava como lavanderia e tinturaria, a padaria com seus fornos e utilitários de cerâmica. Em outro setor da cidade está o Foro, que é onde se situavam os edifícios públicos, como a basílica (onde se resolviam assuntos jurídicos e comerciais), os templos de Apolo, Júpiter e Vespasiano, e também um grande mercado coberto. Havia um enorme anfiteatro, além de teatros, termas, caserna e tudo o que se poderia esperar de uma importante cidade do Império Romano.
Há mansões que tomam quarteirões inteiros e apresentam surpreendente luxo, muitas delas com pinturas de incrível beleza, mosaicos muito bem elaborados e estátuas de bronze. A residência que mais me impressionou foi a “Casa do Fauno Dançante”, assim denominada por causa da pequena estátua que adornava o seu impluvium, um pequeno espelho d’água situado no átrio de entrada à mansão. Essa residência era extremamente luxuosa, com dois átrios, dois peristilos e uma sala de refeição para cada uma das estações do ano. Um dos maiores mosaicos, que se encontrava no quarto principal, foi transferido para o Museu de Nápoles. Mas, havia casas maiores e mais luxuosas do que esta a que me refiro.

Em 1980, Francisco Souto Neto na Casa do Fauno
Dançante. Ruínas de Pompeia, Itália.

O lupanar, bem no centro da cidade, também chama a atenção: era o prostíbulo oficial da urbe. Sobre cada uma das portas que leva aos pequenos quartos há pinturas com temas obscenos, para indicar a “especialidade” da prostituta que ali se encontrava. Nas paredes dos cubículos há ainda grafites dos pompeianos do primeiro século, relatando as impressões daqueles clientes sobre os serviços prestados...
É preciso ter sempre em mente que estou me referindo a uma cidade que foi sepultada pelo Vesúvio apenas 46 anos depois da morte de Cristo e um milênio e meio antes do Brasil ser descoberto!
Na Casa do Criptopórtico estão as imagens em gesso de como alguns dos habitantes se encontravam no momento em que foram atingidos pelas lamas ardentes. Uns morreram sentados, outros abraçando-se, há crianças cobrindo o rosto com as mãos... Há até um cão petrificado no momento em que se contorcia agonizante. Esses “moldes” de pedra vulcânica (isto é, da lama fervente que se petrificou) foram encontrados já sem vestígios dos corpos. Mas, ao serem preenchidos com gesso, revelaram com detalhes as formas das pessoas e animais no momento de sua morte no ano 79.
Um passeio por Pompeia acaba transformando-se em reflexão a respeito da vida e da morte: quase todas as pessoas eliminadas pelo Vesúvio tiveram seus nomes esquecidos no tempo, viraram pó, algumas deixaram o molde em gesso da sua agonia, mas foram, todas elas, seres humanos como nós, que nasceram, brincaram, sofreram, amaram, viveram e desapareceram... há quase dois milênios.

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Francisco Souto Neto: VIAGENS AÉREAS, AS MELHORES E AS PIORES


Jornal do Centro Cívico – Ano 4 – Setembro 2006 – Nº 35
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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VIAGENS AÉREAS, AS MELHORES E AS PIORES
Francisco Souto Neto


Quem já viajou bastante em avião pode ter histórias pitorescas a contar. Eu, por exemplo, não tive dificuldades em me lembrar de alguns estranhos episódios que vivi acima das nuvens...

Um péssimo vôo na infância

No fim dos anos 40 ou começo dos 50, época de minha infância, fiz uma viagem com minha família a bordo de um Douglas DC-3 da Real Aerovias, de Ponta Grossa a Campo Grande, com muitas escalas pelos Estados do Paraná, São Paulo e Mato Grosso. Os aviões a jato comerciais ainda não existiam. Eram as hélices que impulsionavam os antigos aparelhos. Os DC-3 comportavam poucos passageiros, talvez até menos do que os ônibus de hoje.

Um DC-3 da Real Aerovias, em 1955. Desembarque de
Edith Barbosa Souto (segurando grande pacote ao sair
pela porta do avião) no aeroporto de Ponta Grossa, PR,
no vôo Campo Grande-Ponta Grossa.

Em 1955, Edith Barbosa Souto sendo recebida pelo marido, o
jornalista Arary Souto. Atrás do DC-3 da Real Aerovias, vê-se o telhado
triangular (com duas janelas no 1º andar) do aeroporto de Ponta Grossa, PR.

No final da viagem, já à noite, entramos numa tempestade. O avião jogava como imagino que fosse uma carroça a toda velocidade numa estrada esburacada. Meus pais, meus irmãos e eu, assim como todos os passageiros, enjoamos ao extremo. Todos vomitávamos nos saquinhos próprios, e na minha memória ficou como se houvesse um grito contínuo no ar, porque sempre havia o ruído gutural de alguém, ou várias pessoas “destripando o mico” ao mesmo tempo. Nos violentos solavancos e súbitas quedas que o avião sofria em pleno ar com grandes estrondos, bolsas e objetos despencavam dos bagageiros. Ouvi de repente um grito mais alto seguido de som de metal se quebrando! Olhei para o lado e vi a poltrona do robusto passageiro que viajava na última fila (atrás da qual havia a porta de entrada ao avião) quebrando-se, com o homem esparramando-se no chão com as duas pernas para cima e entornando sobre seu paletó o conteúdo do saquinho destinado às indisposições...
O DC-3 chegou intacto (exceto uma poltrona) ao destino, e a prova disso é eu estar aqui, hoje, escrevendo estas linhas... Que tempos heróicos eram aqueles das asas e das hélices da Panair do Brasil e da Real Aerovias!

Alguns desagradáveis vôos dos tempos atuais

No ano de 1991 fiz uma viagem com destino a Roma, a bordo de um “Jumbo” da empresa aérea italiana Alitalia. Para começar mal, viajei na apertada fila central de poltronas da classe turística, que tem seis assentos justapostos sem espaço entre eles. O vôo foi cansativo, os passageiros mal-educados “colaborando” com a falta de higiene dos banheiros, nos quais entrava-se pisando em papéis higiênicos esparramados pelo chão... e por toda parte. A refeição, fraca, teve como sobremesa três uvas. Uma senhora italiana, que viajava ao meu lado, fez um gesto de desalento, dizendo-me no seu idioma: “Mas por quê só três uvas, se temos tantas delas na Itália?”. Logo depois vi essa mesma senhora furtando os talheres que tinham sido usados por ela e o marido. Havia muita turbulência e os bagageiros balançavam ameaçadoramente sobre nossas cabeças. Porém, o mais desagradável estava por vir: no meio da noite, vi um homem da tripulação vindo de quatro, pelo corredor, com uma chave de fenda na mão, apertando ou ajustando algo nas poltronas, quase ao rés do chão. Acho que apertava parafusos. Jamais entendi o que foi aquilo!
Mas o pior dos vôos foi a bordo da Varig, também com destino à Europa: o avião simplesmente não decolava do aeroporto do Rio. Ficou um enorme tempo parado e fazia muito calor. Para distrair os passageiros, começaram a servir as refeições. Pela porta, entravam e saíam homens vestidos de amarelo. Eram mecânicos. “Mecânicos? – pensava eu – Mecânicos que entram e saem da cabine do piloto?” Sim, o avião estava em pane total e os técnicos tentavam fazê-lo voar. Ao final, efetivamente voou.
Na volta daquela mesma viagem, também pela Varig, no aeroporto Charles de Gaulle em Paris, repetiu-se o mesmo drama: o avião não decolava e mecânicos começaram a entrar e sair do aparelho. Um passageiro reclamou ao comissário de bordo, de que com tal atraso perderia uma conexão no Brasil. E o “aeromoço”, grosseiramente, respondeu: “E como é que o senhor quer que o avião decole, se estamos em pane total?”. Eu não tenho medo de viajar de avião. Ao contrário, até gosto muito. Mas panes na ida e na volta deixaram-me estressado. Em todo caso, pensei eu na ocasião, para me consolar, que panes ocorridas no solo são infinitamente melhores do que as que acontecem em pleno vôo...
Curiosamente, algumas semanas depois, minha prima Eliane Amaral foi passear em Nova York, voando pela Varig. No retorno, quando o avião começou a se movimentar pelas pistas, num estrondo ele perdeu uma asa. Sim, a asa caiu! Caiu por ter batido num obstáculo. Minha prima, chorando, e todos os passageiros foram levados para um hotel, à espera de novo vôo marcado para a manhã seguinte. A empresa aérea que foi um dia a melhor do Brasil e uma das melhores do mundo, já entrava num processo de decadência, infelizmente, muito infelizmente para todos nós.
A verdade é que após os dois incidentes relatados, nunca mais voei pelas mencionadas empresas aéreas. Desde então, para viajar ao Exterior faço como minha querida e saudosa tia Mariinha de Salles Souto e Silva, que só voava pela Swissair (hoje Swiss Air), a empresa aérea suíça, fosse qual fosse o seu destino, por ser considerada uma das mais seguras e sérias do mundo.

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sábado, 8 de outubro de 2011

Francisco Souto Neto: BICHOS DE ESTIMAÇÃO DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ


Folha do Batel – Ano 5 – Setembro 2006 – Nº 73
Diretora-Executiva: Celina S. P. Ribello.

Página 10:


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BICHOS DE ESTIMAÇÃO DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ
Francisco Souto Neto


Os primeiros animais domesticados em eras muito remotas foram os ovinos, caprinos, bovinos, suínos, galinhas e perus, todos eles para, direta ou indiretamente, prover a alimentação dos povos antigos.
Como animais de companhia, os primeiros devem ter sido os gatos e os cães. No antigo Egito o gato era sagrado. Muitas múmias de felinos podem ser vistas, ainda hoje, em museus de todo o mundo.
O cão, comumente chamado de cachorro, é talvez o mais antigo animal doméstico. Há teorias de que o cão teria surgido da domesticação do lobo cinzento asiático há cerca de 100.000 anos. No antigo Egito eles eram também mumificados para representação de deuses.
Felinos e canídeos, atravessando os milênios, foram sofrendo seleções artificiais pelo ser humano e preparados, os felinos para combater ratos, e os canídeos para pastorar ovelhas, ajudar na caça, guardar propriedades e rechaçar invasores animais e humanos.
Daí para os nossos dias foi um passo, e aqui estão esses maravilhosos animais vivendo dentro das nossas casas, dormindo em nossas camas e convivendo conosco com uma disciplina quase humana.

Paco Ramirez de San Martin,
chihuahua de Francisco Souto Neto.

Os cães, particularmente, ganharam agora novo status: quando treinados, podem ser os olhos de deficientes visuais humanos, e ainda localizar sobreviventes de grandes tragédias como terremotos, detectar nos aeroportos a presença de drogas em malas, e assim por diante. Agora é a vez dos pacientes cardíacos internados nos Estados Unidos, que se submetem à chamada animal assisted-therapy, que é o tratamento feito com a presença de um cão. Já é comum, mesmo no Brasil, a visita de cães a idosos em asilos e a pacientes hospitalizados com diversas moléstias. O toque na pelagem dos cães e o compartilhar da doçura dos animais faz com que tais doentes apresentem rápida melhora em seu estado clínico.
Crianças com problemas diversos, como o autismo para mencionar apenas um deles, quando em contato com cavalos e usando-os como montaria, têm extraordinários sinais de melhora.
Portanto, justifica-se que respeitemos os animais, todos eles, ao extremo! O animal, comprovado está, sempre reflete a personalidade do dono. Se o dono for violento e sem princípios de boa educação, fatalmente transmitirá os seus defeitos de personalidade aos “animais de estimação”. Teoricamente não há cão ou gato mau; há, sim, maus donos!
Todos nós, seres humanos que nos pretendemos superiores e civilizados, devemos combater e denunciar as violências contra animais, não só as praticadas pelos nossos vizinhos, mas também a vivisecção nas escolas de ensino superior. É inadmissível que professores e alunos cortem, mutilem e matem cães e outros bichos, em nome da Ciência. O pior é que isto vem sendo feito sem sequer o respeito do uso de anestesia. O animal morre gritando e sofrendo. Se em Medicina os alunos estudam sobre cadáveres humanos, e não pessoas vivas, que o mesmo se faça em Veterinária e similares.
Em eras mais antigas, alguns homens mais à frente das suas épocas compreendiam a necessidade de respeitar os animais. Leonardo da Vinci, que viveu há mais de seis séculos, deixou para o mundo esta frase digna, mesmo, de um homem universal: “Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo dos animais. Nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade”.

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