sábado, 17 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: SALZBURG E MOZART, UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO

Jornal Água Verde – Ano 14 – Julho 2005 – Nº 287
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 13:

Capa:



SALZBURG E MOZART, UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO
Francisco Souto Neto


Chegando à austríaca Salzburg, o que primeiro salta à vista é a relação que tem essa cidade com a memória de seu filho mais famoso, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Em frente às mercearias, padarias, bonbonnières e lojas congêneres, bem no meio da calçada, há figuras de Mozart em tamanho natural, de papelão, exibindo numa das mãos uma das atrações da localidade: o Bombom Mozart. As vitrines expõem seu licor mais famoso, o Licor Mozart. Assim como no Brasil os jovens distribuem folhetos com propagandas as mais diversas, em Salzburg, trajados de Mozart, com peruca branca e roupas de época, oferecem nos folhetos os horários onde os teatros locais, logo mais, realizarão concertos de Mozart. A porta da casa onde nasceu o famoso compositor, e também daquela onde ele residiu durante determinado período, têm sempre turistas entrando e saindo.

Francisco Souto Neto nas ruas de Salzburg, ao lado de um cartaz 
 tridimensional em que o compositor Wolfgang Amadeus Mozart
oferece ou exibe um bombom, o "Bombom Mozart". À esquerda,
sobre a foto, o papel do bombom que foi muito bem saboreado... 

Souto Neto em frente a uma casa comercial na
principal rua de pedestres de Salzburg.

Na mesma rua principal, atrás de Rubens Gonçalves, uma
joalheria com a parte superior de porta e vitrine enfeitadas
com flores, o que ali é habitual a quase todas as casas comerciais.

Entrei na casa natal, vi o violino, o cravo, alguns objetos pessoais, e também o único retrato fidedigno conhecido, inacabado, feito pelo cunhado do compositor. Fui ao quarto dos fundos, onde dormia o menino-gênio. Depois, ao debruçar-me na janela da sala, olhei para baixo e vi no meio da rua uma multidão imóvel – talvez um grupo em excursão – olhando para o lugar onde eu me encontrava, fotografando e filmando sem parar.


Este retrato de Mozart é uma pintura inacabada,
feita pelo seu cunhado. É o único retrato fidedigno
do compositor. Todos os demais são idealizados, isto
é, frutos da imaginação dos artistas através dos tempos.

No 3º andar do edifício amarelo atrás de Rubens Faria Gonçalves,
situa-se a casa natal de Mozart. Ali nasceu o compositor, onde viveu
seus primeiros anos na companhia dos pais.

Souto Neto na entrada da residência
onde viveu Mozart já adulto e famoso.

Mozart – melhor dizendo, a memória de Mozart – move hoje a cidade de Salzburg, cidade que, entretanto, maltratou e humilhou o compositor durante a sua curta vida.

Maltratando Mozart

Ao visitar os subterrâneos da catedral de Salzburg, em companhia de Rubens Faria Gonçalves, entrei na cripta onde estão sepultados os príncipes-arcebispos que eram os governantes da cidade. Meu amigo correu os olhos pelas lápides e comentou: “Para mim, todos desconhecidos. E o mais importante nome de Salzburg foi enterrado como indigente, em lugar não identificado”. Efetivamente, Mozart morreu na miséria, no dia 5 de dezembro de 1791, aos 35 anos, vítima de nefrite aguda. Devido a uma grande tempestade de neve na hora do seu enterro, somente duas pessoas acompanharam o corpo ao cemitério. Lá chegando, foi enterrado em vala comum. Alguns dias depois, quando a sua viúva procurou localizar o lugar, com o objetivo de ali colocar uma cruz, ninguém soube informar-lhe. Os restos mortais de Mozart perderam-se para sempre.
Em contraste, o começo da vida do menino-gênio foi um sucesso jamais visto ou repetido na História: com a idade de quatro anos, Mozart compôs o seu primeiro concerto: a primeira sinfonia foi assinada aos sete anos. Aos doze, completou a primeira ópera.
A imperatriz Maria Tereza, que ouvira comentários sobre o menino-prodígio que vinha empolgando Salzburg e Viena, chamou-o ao Palácio de Schönnbrunn para um sarau musical. O garoto, então aos dez anos, era compositor, cravista, e suplantava muitos dos maiores intérpretes da época. Quando Mozart entrou no elegantíssimo salão, escorregou no assoalho muito polido e levou um enorme tombo. Filha da imperatriz, a princesinha Maria Antonieta (que mais tarde viria a ser a trágica rainha da França) acorreu em seu socorro. O menino pôs-se em pé e agradeceu à princesa nestes termos: “Você é muito bondosa. Quando crescer, quer se casar comigo?”, dando-lhe um beijo. Sua espontaneidade encantou a corte e Mozart conquistou a simpatia da Áustria.
Nos primeiros anos, ele foi famoso e feliz, deu concertos para reis, imperadores, e até para o Papa em Roma. Excursionou por toda Europa e foi aclamado por multidões. Mas Mozart gastava mais do que ganhava.
Depois vieram infortúnios em sua vida pessoal, ao mesmo tempo que o público frívolo e fútil se desinteressou da sua obra. A nobreza passou a considerá-lo um vassalo comum, útil só para os seus momentos de lazer. O arcebispo Heronimus, conde de Colloredo e dirigente de Salzburg, humilhava-o constantemente, obrigando-o a fazer refeições com a criadagem, ao lado de cozinheiros e copeiros. A própria imperatriz Maria Tereza impediu que seu filho Ferdinando, duque da Lombardia, o contratasse, sob a alegação de que “os músicos que se põem a rodar pelo mundo à maneira de pedintes, não contribuem para a boa fama da profissão”.

Amor & ódio

Assim, o amor inicial de Salzburg por Mozart desfez-se, arrastando o músico à miséria. Este passou a devotar ódio à cidade, tendo certa vez afirmado que “preferiria tocar diante de cadeiras vazias, do que para os moradores daquela ‘terra de mendigos’ ”.
Após sua morte, o mundo reconheceu a genialidade sem limites do compositor, e a beleza e a perfeição aliadas ao sublime no contexto das partituras.
Hoje, Salzburg ama a memória de Mozart e a sua música eterna, tanto – ou mais – quanto nós. E enquanto os seus príncipes-arcebispos jazem no esquecimento da cripta da igreja, Mozart vive para sempre nos ouvidos, corações e mentes dos amantes da sua música que se distingue como uma das melhores de toda a História da Humanidade.

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: CRETA, LABIRINTO E MINOTAURO

Jornal Água Verde – Ano 14 – Abril 2005 – Nº 284
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 14:

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Jornal Centro Cívico – Ano 3 – Maio 2005 – Nº 26
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 10:


Capa:




CRETA, LABIRINTO E MINOTAURO
Francisco Souto Neto



Creta é a maior ilha da Grécia, com 8.336 quilômetros quadrados, situada no Mar Mediterrâneo oriental, com cidades de grande importância histórica e cultural, onde vivem mais de meio milhão de pessoas.
Da capital de Creta, Iráclion (ou Heraclion), alcança-se facilmente a maior atração da ilha, que são as ruínas de Cnossos (ou Knossos), lugar onde, há mais ou menos 4.000 anos, floresceu a civilização minóica. Anterior aos gregos, o povo minóico conheceu um nível de sofisticação e magnificência que é considerado como a fonte de inspiração da cultura europeia.
Por volta do ano 1.450 a.C. (portanto, há aproximadamente 3.455 anos!), a explosão vulcânica de Santorini – uma ilha mais ao Norte – provocou um terremoto seguido de maremoto ou tsunami, que destruiu completamente a civilização minóica, alterando para sempre a história do nosso planeta.
Cnossos vem sendo escavada e suas ruínas parcialmente reconstruídas desde o início do século XX. Essa reconstrução talvez não obedeça a um verdadeiro rigor histórico. Seja como for, já é possível passear pelo grande palácio que se chama Labirinto, o lugar onde nasceu a lenda do Minotauro de Creta.

Ruínas do Palácio de Cnossos, ou Labirinto.

Souto Neto sobre o Palácio de Cnossos, ou Labirinto.

Planta do Labirinto de Creta, isto é, o Palácio de Cnossos.


Tauromaquia e seios nus

Pinturas murais e mosaicos que resistiram ao terremoto atestam que a tauromaquia (a arte de tourear) era mais ritualística do que esportiva, e mostram-nos jovens saltando por sobre o dorso de touros. Esses animais, os touros, eram mortos ritualisticamente, mas a carne consumida, enquanto os ossos eram enterrados em grandes fossos, com fins religiosos.

Neste mural de Cnossos, três homens praticam a tauromaquia.
Um deles está saltando sobre o touro.

O padrão de beleza, tanto para mulheres quanto para homens, era a “cintura de vespa”. Tudo indica que os minóicos não eram guerreiros, mas integravam uma sociedade voltada à arte e à beleza. As mulheres vestiam-se suntuosamente, mas todas elas, da rainha e das esposas dos políticos mais influentes, até às mais humildes servas, deixavam os seios nus.

Este mural mostra três mulheres minóicas com seus
elaborados penteados e os seios nus.

Provavelmene uma princesa monóica, com
os seios nus, seguida por alguns súditos.

Um príncipe minóico. Mural em Cnossos.

O palácio de Cnossos, ou Labirinto, e era enorme, com mais de mil quartos, incontáveis salas e centenas de intrincados corredores, desfrutando do conforto de um bem elaborado sistema de drenagem, banheiras, e até vasos sanitários com descargas, algo inimaginável em qualquer outra parte do mundo há cerca de 3.500 anos! Foi a partir do Labirinto de Creta que a palavra “labirinto” se tornou o substantivo comum que se designa aquilo que todos conhecemos.
É fácil começar a compreender a lenda do Minotauro da mitologia, que habitava o Labirinto, porque os reis de Cnossos chamavam-se Minos, e o touro, ou taurus, era cultuado. Assim, Minos e taurus derivam para a palavra e o mito do Minotauro.

Minotauro e Labirinto

Visita-se Cnossos em grupos guiados. Fazendo parte de um destes, lembro-me claramente da expressão divertida da guia, uma senhora opulenta com uns 40 anos, quando, após termos percorrido os exteriores, disse ela a todos: “E agora fiquem bem próximos, não se afastem de mim e não percam ninguém de vista, porque vamos entrar no Labirinto de Creta!”. Ela fazia alusão à lenda, segundo a qual o Minotauro era um ser monstruoso, metade homem e metade touro, nascido de Pasifae (mulher do rei Minos) e de um touro branco enviado pelo deus Posêidon (ou Posseidon). O rei Minos, furioso com a traição da rainha, aprisionou no Labirinto o filho-monstro de Pasifae. O Minotauro alimentava-se somente de carne humana, e a cidade de Atenas (que era, efetivamente, uma colônia de Cnossos) foi condenada a pagar um tributo anual de sete virgens e sete rapazes que eram dados ao monstro. Finalmente, o Minotauro foi morto por Teseu, um dos jovens enviados para o sacrifício. Teseu poderia passar muitos anos dentro do Labirinto, talvez toda a vida, sem encontrar o caminho de volta, porque, sem a ajuda de uma guia como a minha – aquela senhora opulenta à qual me referi há pouco – a saída do Labirinto poderia ser uma vã esperança. A sorte foi que Ariadne, filha do rei Minos, apaixonada por Teseu, deu a ele o fio que o ajudou a sair do Labirinto logo após matar o Minotauro.

Sala do trono do rei Minos, no Labirinto de Creta.

Quarto da rainha de Cnossos. Ela estava trocando a decoração
da parede (observar friso sob os golfinhos), quando o terremoto
seguido de tsunami destruiu a civilização minóica.  

Quando estávamos num dos subterrâneos, a guia do meu grupo de visita apontou a uma parede em forma de grade, cuja porta estava fechada com cadeado, e disse a todos que ali, segundo a lenda, era a cela do Minotauro. Bem-humorada, ela brincava com os turistas. E logo foi afastando-se, seguida por todos. Eu cheguei bem junto à grade e olhei através dela para a obscuridade do enorme cômodo vazio, pensando não na lenda do Minotauro, mas na maravilha da civilização minóica que, por ter sido destruída numa catástrofe natural, deve ter atrasado o avanço da civilização por milênios. Havia um vento encanado que, naquele silêncio, começou a assoviar... Era um assovio grave, quase um sussurro. Seria, talvez, como um mugido distante... Afastei-me da grade e apressei o passo na direção em que o grupo havia há pouco desaparecido. Logo ouvi as vozes das pessoas e, ao alcançá-las, desperdicei a rara oportunidade de ficar perdido – para sempre? – no Labirinto de Creta.

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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: BARCELONA E SUA INCRÍVEL IGREJA DA SAGRADA FAMÍLIA


Jornal do Centro Cívico Ano 3 – Abril 2005 – Nº 27
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 10:


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Jornal Água Verde Ano 14 – Maio 2005 – Nº 285
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 12

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BARCELONA E SUA INCRÍVEL IGREJA DA SAGRADA FAMÍLIA
Francisco Souto Neto

Igreja Expiatória da Sagrada Família.

No final da década de 70 desembarquei em Barcelona, na Catalunha, com um objetivo principal: conhecer a Igreja Expiatória da Sagrada Família, obra iniciada (e ainda inacabada) em 1884 por um dos mais controversos arquitetos de todos os tempos, e o mais importante da Espanha: Antoni Gaudí (1852-1926).
Decidido a construir a maior e mais inovadora catedral do mundo, e sabendo que a obra duraria séculos, ocorreu-lhe que a fachada leste – a Fachada da Natividade – deveria ser levantada antes das demais e completada ainda durante a sua geração. Assim, trabalhando nisso ao longo de ininterruptos 40 anos, viu os primeiros quatro campanários prontos, com a sua Porta da Fé, Esperança e Caridade, e sentiu-se satisfeito com a conclusão da primeira parte da obra.
Gaudí morreu aos 74 anos atropelado por um bonde, e as obras pararam. Somente após a Guerra Civil Espanhola, a construção foi retomada, mas muito lentamente, porque sem apoio governamental, apenas com doações dos visitantes.
Na minha primeira visita à Sagrada Família, a construção das quatro torres da fachada oeste já tinha alcançado o seu ápice, mas estava ainda em obras e a entrada se fazia pela Fachada da Natividade.

Galgando as alturas

Naquela ocasião, a igreja apresentava-se assim: de um lado, as quatro torres da fachada leste; do outro, as quatro torres da oeste... e todo o espaço entre tais fachadas estava a céu aberto, com grama no seu centro vazio! Eram, portanto, duas fachadas isoladas, monumentais em altura e beleza, mas que pareciam cenários de teatro.


Atrás, as quatro torres da Fachada da Natividade, e na frente as
quatro torres da Fachada da Paixão. Estas serão as duas
fachadas laterais. No futuro, a entrada principal será feita pela
Fachada da Glória, que ainda não existe.
Foto do começo dos anos 90.

Final da década de 90.

O elevador da torre da Natividade não estava funcionando, e eu me dispus a subir os 400 degraus para poder apreciar o panorama de Barcelona. Mais que isto, a escalada serviu para que eu pudesse observar o espetáculo visual sem precedentes da construção de Gaudí, e sentir de perto a magnificência das suas paredes de pedra.
Estive também na cripta, onde está Gaudí enterrado, e vi a maquete do que será a igreja quando pronta, com uma torre central ainda mais alta do que as anteriores, num desvairio de formas arquitetônicas que lembram a Natureza, tais como troncos de árvores e folhas... tudo em pedra. Lembro-me de que, naquela ocasião, embora ainda muito jovem e viajando com apertada economia, não resisti ao entusiasmo e emoção ante a beleza da obra, e fiz uma doação espontânea ao cofre da igreja, pensando: “quero ajudar na construção deste templo fantástico, nem que seja com o equivalente a uma modesta pequena pedra”.

A Fachada da Paixão

Só em 1991 retornei a Barcelona, agora na companhia do meu amigo Rubens Faria Gonçalves. E ambos logo rumamos à Sagrada Família. A Fachada da Paixão (lado oeste) já estava inaugurada, e por ali é que agora se fazia a entrada. Em oposição à outra fachada, original de Gaudí, onde é relatada na pedra a alegria do nascimento de Jesus, a nova fachada evoca desolação, dor, sacrifício e a morte de Cristo.
Em 1987, nomeado pela Junta de Construção, o escultor Josep María Subirachs começou a fazer a parte escultórica, mas impôs a condição de não imitar Gaudí para não manusear a sua obra, deixando claro aquilo que era criação do genial Gaudí (isto é, a Fachada da Natividade), e o que seria dos artistas dos tempos por vir. E deste modo as esculturas de Subirachs resultaram “descarnadas”... e polêmicas. Mas não são justamente a polêmica e a inovação que costumam movimentar a arte? A mim, o resultado pareceu interessantíssimo. Apesar da mudança de estilo das novas estátuas (pois Subirachs é nosso contemporâneo), está em harmonia com a arquitetura da igreja, que é toda de Gaudí. Quando for erguida a terceira fachada, que será a frente da igreja, lá pela metade deste século que está apenas começando, certamente algum artista – que talvez hoje não tenha ainda nascido – irá esculpir conforme os ditames do futuro.
Subimos os 400 degraus da torre, cuja altura equivale mais ou menos à de um prédio de uns 40 ou 45 andares. Imaginei que era a última vez que eu me dispunha a fazer tal esforço.

A visita de 2001

Em 2001 estive outra vez em Barcelona, e novamente com Rubens Gonçalves, meu velho companheiro de viagens. E é claro que logo acorremos à Igreja Expiatória da Sagrada Família.
A construção avançou muito. Agora as duas fachadas laterais estão unidas pelo teto da futura nave central do templo. Ficamos longamente observando o trabalho ruidoso dos construtores serrando grandes blocos de pedra e erguendo altíssimas colunas. Pensei, assombrado, que estávamos tendo o raro privilégio de acompanhar alguns dos passos da construção da “Catedral dos Pobres” – a Sagrada Família é também assim conhecida, porque vive e cresce de pequenas “esmolas” doadas pelo povo.
Vimos o local onde se erguerá a Fachada da Glória e a torre do domo central que, de tão alta (170 metros) “tocará o céu”, equivalendo à altura de um prédio de quase 60 andares. Talvez seja concluída somente no século XXII, quando então deverá ser a maior igreja do mundo.

Provável aspecto da igreja quando estiver concluída.

Como de hábito, mais uma vez dispusemo-nos a subir as quatro centenas de degraus de uma das torres. A subida é muito divertida, cheia de paradas para observar a um ou outro detalhe. A meia altura, as torres intercomunicam-se através de uma ponte de pedra. As escadas espiraladas estão sempre coalhadas de turistas. Quando alguém ultrapassa, é preciso que o outro se encoste à parede para abrir espaço. Sobe-se por uma escada e desce-se por outra. Chegar ao alto da torre é tão maravilhoso que o turista logo se esquece do cansaço da subida.

Além de Gaudí

A Sagrada Família foi “apenas” a última construção de Gaudí. As obras do assombroso arquiteto espalham-se para além da Catalunha. Por exemplo, a Catedral de Palma de Majorca (onde estive há quatro anos) tem o altar projetado por Gaudí.
Além disso, Barcelona não é “somente Gaudí”. Trata-se de uma cidade riquíssima, a segunda da Espanha em população, que rivaliza com a capital daquele país em cultura e beleza. Eu, particularmente, gosto muito mais de Barcelona do que de Madri. Seus habitantes não se consideram espanhóis. Barcelona, capital da Catalunha (região que aspira se separar da Espanha) quer ser a capital do “país catalão”. Até língua própria eles têm, que é, obviamente, o catalão, e nem mesmo gostam de falar o espanhol.
Questões políticas à parte, eu penso mesmo é em um dia voltar a Barcelona para “fiscalizar” os progressos da construção e ter ainda vigor bastante para dispensar o elevador e subir os 400 degraus da extraordinária, esplendorosa e monumental Igreja Expiatória da Sagrada Família.


Estágio atual das obras, em 2011.


Pequena parte da igreja, consagrada pelo Papa em
sua viagem a Barcelona em 2011. No futuro, esta
será uma das capelas do imenso templo.

Fascinante teto, com incríveis colunas, da pequena 
parte da igreja que já começa a funcionar.

Ilustração original: Aspecto atual da Igreja da Sagrada Família, com duas fachadas laterais já edificadas, totalizando oito torres.

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OBSERVAÇÃO: ADENDO EM 13 DE SETEMBRO DE 2011:
Agora com apoio do reino da Espanha, a Igreja Expiatória da Sagrada
Família deverá ser concluída nos próximos 20 anos.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: PRETO E BRANCO, OS COELHOS DO CENTRO CÍVICO


Jornal do Centro Cívico Ano 3 – Março 2005 – Nº 25
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 13:


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PRETO E BRANCO, OS COELHOS DO CENTRO CÍVICO
Francisco Souto Neto



Quando pela primeira vez vi os dois coelhos, um preto e outro branco – daí, seus nomes – atravessando a movimentada Rua Mauá no Centro Cívico, não acreditei nos meus olhos. Para as funcionárias da portaria do prédio onde resido, não havia novidade alguma, pois elas conheciam os dois animais há longa data.
 Ambos os liporídeos são os animais de estimação do proprietário de uma casa contígua, usada como escritório. Logo que adquiridos, foram colocados num espaço cercado, no fundo do quintal. Mas eles cavaram sob a cerca, e passando pelas frestas do portão de metal, ganharam a rua e acostumaram-se à liberdade.
Se eu não os conhecia há mais tempo, foi porque não coincidiu que eu passasse no exato momento em que os animais estivessem na calçada ou atravessando a rua, já que o habitual é que estejam no meio-fio, ao lado dos carros estacionados, comendo alguns matinhos que, sorte deles, não têm sido cortados pelos funcionários da prefeitura.
Ambos os coelhos costumam visitar os jardins dos prédios adjacentes, e os moradores já se habituaram à presença dos mesmos. Até os motoristas tomam cuidado para que os bichinhos não sejam atropelados. Dentro dessa aparente tranquilidade, Branco e Preto dão à rua um aspecto bucólico, agradável, e fazem com que nos sintamos mais integrados à Natureza.

Preto.

Branco.
Porém, repito, a tranquilidade é apenas aparente, porque do mesmo modo como despertam os bons sentimentos nas pessoas mais educadas, há aqueles indivíduos que tentam agarrar os animais e levá-los para sabe-se lá que incógnito destino. Na semana passada, quando saí para passear com meu chihuahua Paco Ramirez, vi sete adolescentes tentando agarrar os animais. Tive que gritar com os jovens, que me lembraram os velhos filmes farwest, quando os índios americanos – demonizados pelo falso cinema da minha infância –, montados em cavalos, corriam em círculo ao redor dos colonizadores, para tirar-lhes os escalpos. Não foram os meus gritos de protesto que fizeram parar os delinquentes, mas a rapidez com que os coelhos fugiram deles para o jardim de um prédio próximo.
Noutra ocasião, vi um homem que tentava alcançar os animais que se esconderam sob um dos carros estacionados. Tratei de intervir, dizendo ao indivíduo que os bichos tinham dono. Desapontado, o homem foi embora. Como era alguém muito pobre e maltrapilho, temi que o destino dos coelhos pudesse ter sido a panela...
Vieram-me reflexões. Pareceu-me bem clara, através dos coelhinhos do Centro Cívico, a imensidão dos abismos sociais e a falta de educação que existem num país como o Brasil, de imensos e quase incontornáveis contrastes. Aquilo que para uns é motivo de admiração, alegria e respeito, para outros incita à violência, despertando-lhes os mais baixos instintos predatórios... ou, o que é ainda muito mais dramático – como no caso do maltrapilho –, pode impelir ao furto para matar a fome.
Em meio ao conflito existencial, não há como não nos entristecermos uma vez mais, com a dura realidade do eterno contraste entre o certo e o errado, entre o bonito e o feio, entre o Bem e o Mal.

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sábado, 10 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: EM MÍKONOS, GRÉCIA, PROCURANDO PETRUS

Jornal Água Verde Ano 14 – Fevereiro 2005 – Nº 282
Diretor-presidente: José Gil de Almeida.

Página 13:


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EM MÍKONOS, GRÉCIA, PROCURANDO PETRUS
Francisco Souto Neto



Ao desembarcar na ilha grega de Míkonos, uma das mais belas do Mar Egeu, eu tinha em mente um objetivo: encontrar Petrus (também grafado como Pétros), o mais famoso habitante daquele lugar e muito conhecido em todo o mundo.
É claro que me era também muito importante conhecer as atrações turísticas e culturais da ilha, cuja história remonta a 1207, época em que Míkonos esteve sob o domínio de Veneza. Só em 1615 o lugar floresceu como uma sociedade auto-suficiente.
Hoje a cidade é considerada uma das mais atraentes da Grécia, onde a vida noturna é mais movimentada do que a da capital Atenas, e ali muitos atores famosos de Hollywood construíram luxuosas casas de veraneio. Figuras da realeza não só europeia, como também intelectuais do mundo inteiro, escritores, artistas plásticos, e toda uma miríade do chamado jet set, fez de Míkonos uma das ilhas mais “badaladas” do planeta.
Ainda assim, apesar de tanta gente famosa, é Petrus, nascido ali mesmo, a figura mais importante da paradisíaca ilha.

Procurando Petrus

Após conhecer os lindos moinhos de vento da cidade, e de percorrer as suas ruelas estreitas e limpas, cheias de lojas finas que funcionam nas casas caiadas de imaculado branco, fomos, eu e meu companheiro de viagem Rubens Gonçalves, até ao porto – local onde, segundo informações, poderia estar passeando o famoso habitante. Tendo encontrado um barqueiro que falava inglês, perguntei-lhe se sabia onde poderíamos ver Petrus. Respondeu-me que àquela hora – já era noite – nós certamente o encontraríamos nas imediações dos restaurantes.
Saímos apressadamente, mas sem acreditar que veríamos Petrus. A bem da verdade, o que eu mais desejava era tirar uma fotografia da importante figura e, se ele me permitisse, passar a mão sobre a sua cabeça.

Encontrando Petrus

Foi quando ocorreu algo incrível. Andando pelas ruelas de Míkonos, tive a impressão de ver, num lapso de segundo, o Petrus que desaparecia na rua transversal. É difícil explicar, mas o corpo de Petrus, de andar cadenciado, já ultrapassava o limite do vértice daquela via transversa, e tudo o que pude avistar foi a sua parte traseira que ia sumindo na referida esquina. Porém não tive dúvidas de quem se tratava. Gritei ao Rubens Gonçalves, até me esquecendo momentaneamente do nome daquela criatura: “É ele! É ele! Corra, que precisamos alcançá-lo!”. Rubens Gonçalves corria atrás de mim, perguntando: “Quem? Quem você viu?!” – mas pela minha euforia percebeu de quem se travava: “O Petrus?”.
Sim, era ele mesmo, Petrus, o mais famoso pelicano do mundo. Na corrida, logo o alcançamos e vimos que, passeando entre as mesas da calçada, ele parou na porta de um restaurante. Um garçon atirou um peixe cru à ave que, com facilidade, o apanhou no ar com seu longo bico.  Rubens Gonçalves aproximou-se e acariciou-lhe as penas da cabeça. Eu a tudo filmava. Os turistas que jantavam levantaram-se das suas mesas, e flashes espocaram sobre Petrus e Rubens. Pedi a meu amigo que invertêssemos a situação e me filmasse enquanto eu acariciasse o topete da ave. Por um segundo, ao ver seu enorme bico, confesso que fiquei um pouco temeroso, mas avancei e afaguei o grande pássaro. Os turistas do restaurante, entusiasmados e rindo-se, continuaram filmando e fotografando a divertida cena.

A história de Petrus

Eu sabia, apesar do temor inicial, que aquele pelicano jamais me bicaria, pois ele foi especialmente treinado pelo governo grego para ser sociável e manso, e admitir o toque das mãos de crianças e adultos. Já houve três outros Petrus anteriores. O primeiro, em meados do século XX, ainda filhote, por ter quebrado a asa num acidente, e tratado por pessoas de Míkonos que, afinal, o domesticaram, acabou por provocar o interesse dos turistas. Quando foi envelhecendo, já muito famoso, as autoridades resolveram treinar um novo Petrus para tomar o lugar do primeiro, quando este morresse. E as gerações de humanos sucedem-se enquanto Petrus permanece como se fosse sempre o mesmo, como um imortal que, também por isso, vem tendo a sua fama ampliada através das décadas.
Deste modo, pode-se dizer que Petrus jamais morrerá e que estará para todo o sempre em Míkonos, encantando, num clima de absoluta magia, àqueles que, viajando pelas Ilhas Cíclades, tiveram a rara felicidade de encontrá-lo.

Petrus.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Francisco Souto Neto: UM PASSEIO À CASA E AOS JARDINS DE CLAUDE MONET

Jornal Água Verde Ano 13 – Novembro 2004 – Nº 280
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

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Folha do Batel Ano 6 – Dezembro 2004 – Nº 54
Diretora-executiva: Celina S. P. Ribello

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Página 6:



UM PASSEIO À CASA E AOS JARDINS DE CLAUDE MONET
Francisco Souto Neto


Quando, recentemente, eu e meu companheiro de viagem Rubens Faria Gonçalves passamos uns dias em Rouen, na França, para entre outras coisas, conhecer os lugares onde ocorreram a prisão e a morte de Joana d’Arc na fogueira, aproveitamos a oportunidade para realizar uma pequena viagem a Giverny, com o objetivo de conhecer a casa e os deslumbrantes jardins do artista plástico impressionista Claude Monet.
Fizemos o percurso da seguinte maneira: primeiro viajamos de trem até Vernon, cujo trajeto demora exatamente 40 minutos. De lá, tomamos um táxi até Giverny, em cujos arredores localiza-se a antiga propriedade de Monet.

Perfil de Monet

O pintor francês Claude Monet nasceu em Paris em 1840 e faleceu em Giverny em 1926, aos 86 anos. Ele e alguns outros artistas franceses estabeleceram as bases do impressionismo com uma pintura revolucionária para os padrões da época: nas suas pinceladas, eles passaram a ater-se mais à qualidade da atmosfera e da luz, e menos na precisão da imagem propriamente dita. Monet, mais particularmente, dedicou-se a temas fluídos e tratou em cores vibrantes e claras os efeitos luminosos do ar e da água. As flores do seu jardim foram pintadas como que em explosões de cores e luzes.
Em 1883 Monet já estava instalado na sua propriedade de Giverny, onde plantou o extraordinário jardim em frente à casa, hoje transformada em museu.
Ele teve a sorte de conhecer o sucesso em vida. Costumava receber convidados para o jantar, e mostrava-se exigente, comme il faût, em termos de horários e de disciplina: assim, mesmo aos mais íntimos amigos não dispensava pontualidade à mesa.

A casa

A fachada da casa, muito extensa, pintada em cor-de-rosa e com janelas verdes, é coberta de roseiras e trepadeiras. Começa-se a visita pelo atelier do artista, que exibe apenas cópias dos quadros, cujos originais estão nos mais importantes museus do mundo. Vimos, numa das paredes, uma foto de Monet no Le Mont-Saint-Michel, exatamente no lugar onde eu e Rubens Gonçalves tínhamos estado alguns dias antes.


Francisco Souto Neto nos jardins da casa de Claude Monet.

Rubens Gonçalves nos jardins da casa de Claude Monet.

Rubens Faria Gonçalves na escada para a porta de entrada da casa de Monet.

Souto Neto na varanda da casa de Monet.

As cores do interior da residência são também aquelas que Monet apreciava. O cômodo que mais me impressionou foi a cozinha, de paredes amarelas e lindos azulejos, com móveis provençais franceses, e panelas e demais utensílios, creio que de cobre, com brilho impecável, pendurados em ganchos nos armários.
Subimos as escadas e conhecemos os quartos e banheiros. Retornando às salas do andar térreo, pusemo-nos a imaginar as maiores celebridades daquela época e os mais importantes artistas plásticos do mundo ali reunidos.

Os jardins

Se a casa encanta, que dizer dos jardins? Eles estendem-se por uns 200 metros abaixo e são de uma exuberância inenarrável. Atualmente estão divididos ao meio por uma estrada, mas a comunicação por ambas as partes faz-se através de um túnel particular para pedestres, que passa sob referida via pública.
A parte de baixo tem um lago coalhado de lírios d’água, sobre o qual está a ponte chinesa de cor verde que Monet imortalizou em tantas telas. Ali também passa um riacho com não mais do que dois metros de largura, mas aparentemente profundo e – o que é impressionante – de águas muito rápidas. Tal riacho corre ao nível dos jardins, sem barrancos laterais, o que ajuda a criar a sensação de um lugar mágico, sem paralelo no mundo.


Pintura de Claude Monet mostrando a ponte chinesa e lírios d'água.

Souto Neto na ponte chinesa dos jardins de Monet.


Rubens Gonçalves, tendo ao fundo a ponte chinesa,
e o lago com os lírios d'água.

Lírios d'água do lago de Monet.

Rubens Gonçalves filmando as flores dos jardins de Monet.

As flores são extraordinariamente variadas e nascem de todos os lados, ora formando alamedas, ora fechando-se em caramanchões, ora espalhando-se pelos caminhos e misturando-se numa amálgama quase irreal de tipos e cores.
Após algumas horas de verdadeiro encantamento, deixamos a antiga propriedade de Monet e retornamos a Rouen, com a certeza de termos conhecido um dos lugares mais belos do planeta.

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