segunda-feira, 15 de agosto de 2011

NO INTERIOR DA PIRÂMIDE DE QUÉOPS (KEOPS) por Francisco Souto Neto

NO INTERIOR DA PIRÂMIDE DE QUÉOPS
por Francisco Souto Neto


Folha do Batel Ano 4 – Fevereiro 2003 – Nº 40
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 4:


Capa:



NO INTERIOR DA PIRÂMIDE DE QUÉOPS
Francisco Souto Neto


Máquinas de ressurreição, as pirâmides egípcias foram concebidas para facilitar ao faraó a sua viagem às estrelas, rumo à vida eterna. Construídas há quase 5000 anos, as pirâmides de Guizé são as últimas remanescentes das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Elas exercem permanentes indagações e certamente continuarão a mexer com o imaginário humano através dos próximos milênios.

Pirâmide arrombada

A Grande Pirâmide de Quéops estava lacrada e selada, com sua porta totalmente oculta no ano de 820, quando foi literalmente arrombada pelo califa Abdullah Al-Ma’mun que, com uma tropa de assalto, forçou uma entrada. Valendo-se da antiga técnica de guerra para romper muralhas, o califa acendeu enorme fogueira junto a um dos enormes blocos de pedra da pirâmide, que foi mantida e soprada até a pedra ficar em brasa. Então derramou grandes quantidades de vinagre sobre o bloco que rachou e foi totalmente quebrado com malhos, pés-de-cabra e alavancas. Deste modo o califa foi avançando foi avançando pelo interior da imensa construção, bloco após bloco. Depois de arrombar poucas dezenas de metros adentro, por puro gole de sorte Abdullah acabou por encontrar uma galeria. Avançando através desta, o califa pôde alcançar os pontos internos do enorme monumento. Enigmaticamente, porém, ele encontrou a pirâmide vazia. Ela já teria sido saqueada há séculos, ou mesmo há milênios, mas não se sabe por onde, e os cientistas contemporâneos não encontram explicação para o ocorrido.
Nos últimos séculos as pirâmides de Quéops, Quefrens e Miquerinos foram abandonadas, o que resultou na perda dos seus revestimentos que teriam sido de mármore. No século XIX a entrada na Grande Pirâmide tornou-se impossível porque as fezes de morcegos que nela habitavam, chegaram a quase entupir todas as galerias. Ao nascer a conscientização da necessidade de se preservar esse fenômeno da engenharia da mais remota Antiguidade, os túneis e galerias foram limpos e restaurados. Os arqueólogos do século XX trabalharam tenazmente pela conservação das imensas construções e efetuaram admiráveis trabalhos de restauração em toda a área das pirâmides, notadamente na Esfinge, uma das mais emblemáticas construções do Antigo Egito.

O caminho rumo a Guizé

Quando eu e Rubens Faria Gonçalves visitamos o Cairo no começo dos anos 90, ficamos hospedados no apartamento número 2025, no 25º andar do El-Gersirah Sheraton Towers, um moderno hotel cilíndrico situado numa ilha bem ao centro do Rio Nilo, de cuja sacada podíamos avistar, no horizonte distante, as silhuetas das três Pirâmides de Guizé.

Da sacada do apartamento no El-Gezirah Sheraton Towers, 
Souto Neto e Rubens Gonçalves vêem a silhueta
das Pirâmides no horizonte. Abaixo, o Rio Nilo.

Souto Neto fotografa seu próprio pé no desvão da sacada,
mostrando a piscina do hotel 25 andares abaixo, e
as águas do Rio Nilo.

O Hotel El-Gezirah Sheraton Towers
visto de longe.

No nosso segundo dia de estada na capital do Egito, resolvemos ir à Grande Pirâmide, mas fizemos isso do meio mais tradicional possível: primeiro, um guia de nome Amr foi apanhar-nos no hotel, num táxi cujo motorista chamava-se Mohammed (Maomé). Partimos rumo às pirâmides pelas difíceis ruas do Cairo, em meio a incessantes buzinas, freadas bruscas e pedestres atravessando desordenadamente na frente dos carros. É que na cidade do Cairo – mais populosa do que o Rio de Janeiro – não existem semáforos, o que faz do seu trânsito um dos mais tenebrosos do mundo. Depois de sairmos do centro antigo, dá-se num bulevar de duas pistas, com canteiro central de acácias, eucaliptos e tamarineiras. Guizé é o nome do bairro, distante 16 quilômetros do Cairo, onde estão as famosas pirâmides.

A pequena caravana

Mohammed estacionou num lugar cheio de camelos, onde ele e Amr ficariam à possa espera por duas horas, enquanto visitaríamos a Grande Pirâmide e a Esfinge. Ali contratamos a pequena “caravana” que iríamos utilizar. Escolhemos os nossos camelos e partimos assim organizados: um menino de uns 12 anos de idade ia à frente puxando um burrico, no qual montava um adolescente – nosso guia naquele passeio – que estava atado por uma corda ao camelo maior, montado por meu amigo Rubens. Esse camelo maior “rebocava” o meu.

A "caravana" rumo às Pirâmides: Rubens Gonçalves e Souto Neto
nos camelos, à frente dos quais logo depois foi atrelado um burrico.

Com os animais atrelados uns aos outros, seguimos pelas escaldantes areias do deserto, roçando antigas mastabas, rumo à Grande Pirâmide.

No coração da Pirâmide

Souto Neto em frente à Pirâmide de Quéops.

Ao fundo vê-se claramente o local arrombado pelo califa Abdullah,
e também o caminho (escada) acidionado no século XIX
para que os visitantes possam alcançar a entrada.

Entra-se na Pirâmide de Quéops através da parede arrombada há mais de 1000 anos pelo califa Abdullah. Após percorrer uns quarenta metros pelo caminho arrombado, encontra-se o primeiro corredor original do monumento. Dali até à Câmara do Rei, no coração da Pirâmide, é preciso subir... 180 metros. Metade do caminho faz-se por esse estreito túnel denominado “primeiro corredor ascendente”, muito íngreme, que tem apenas 50 centímetros de altura. Sobe-se todo o tempo abaixado, batendo a cabeça no teto. Já na metade dessa extensa escalada, encontramos duas idosas senhoras norte-americanas que vinham descendo de costas. Elas gritavam para que voltássemos, porque naquele estreito e apertado corredor havia espaço para passar uma só pessoa de cada vez. Naquele impasse, encontramos uma solução: com nosso inglês deficiente, explicamos-lhes que tínhamos que continuar subindo porque não podíamos atrasar-nos, sugerindo-lhes que se recostassem num dos lados do túnel e, desculpando-nos pelo incômodo que lhes causávamos, conseguimos subir. Esgueiramo-nos túnel acima, embora roçando as duas damas. Porém depois de mim e meu amigo, ninguém mais conseguiu subir, porque então as norte-americanas, em sua lentíssima descida de costas, realmente passaram a obstruir o caminho dos outros, decididas a não lhes desviar as suas grandes ancas. O incidente nos favoreceu porque, a partir de determinado momento, ficamos completamente a sós, e pudemos fazer uma sucessão de descobertas, ouvindo apenas o eco das nossas próprias vozes cheias de admiração.

Os espaços coloridos em verde mostram os caminhos
que Souto Neto e Rubens Gonçalves percorreram no interior
da Grande Pirâmide, para alcançar a Câmara do Rei, no coração
da construção, e também a Câmara da Rainha.

Detalhes dos caminhos percorridos.

Após a Grande Galeria Ascendente, o desenho acima
mostra o caminho por onde é preciso andar abaixado,
até atingir a Câmara do Rei.

Esquema do sarcófago, ou "o cofre".

Ao fim do estreito túnel, desembocamos num majestoso espaço também ascendente denominado Grande Galeria, com cerca de 90 metros de comprimento por oito de altura. Naquele ponto está a entrada para a Câmara da Rainha e o sinistro poço – convenientemente tampado – que desce, quase a prumo, a mais de 100 metros, até à câmara subterrânea. Subimos pela Grande Galeria olhando as pedras e correndo os dedos pelas paredes polidas. Chegando ao final da subida, dois gigantescos degraus são acesso a uma passagem com cerca de um metro de altura. Vencido esse pequeno obstáculo, encontramo-nos na Antecâmara. Outro túnel com um metro de altura e uns cinco de comprimento levou-nos, finalmente, à Câmara do Rei... Tínhamos chegado ao coração da Pirâmide!

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Já dentro da Câmara do Rei, Rubens Gonçalves mostra
a altura da porta de entrada, onde se vê Souto Neto abaixado.

Souto Neto dentro do sarcófago.

Rubens Gonçalves no sarcófago.

A Câmara do Rei é um retângulo com mais ou menos 30 metros quadrados e tem uns seis metros de altura. No centro está o sarcófago vazio e sem tampa, com um dos cantos lascado. Sentíamos muito calor e estávamos arfantes devido ao cansaço da subida. Mas o fato de estarmos dentro de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo aguçava a nossa curiosidade. Como encontrávamo-nos a sós e nenhuma placa indicava que pudesse ser proibido entrar no sarcófago (também chamado “cofre”), resolvi fazê-lo. Tudo foi devidamente filmado e fotografado. Após sair cuidadosamente do sarcófago, foi o meu amigo que repetiu o gesto. Sentíamo-nos donos do monumento. Meu pensamento corria os meandros da História da Humanidade. Pensei nos primórdios da civilização: aquela pirâmide já era muito velha quando a Europa vivia ainda a Pré-História. Vislumbrei sucessões de dinastias egípcias. Lembrei-me de Napoleão, ao conquistar o Egito no começo do século XIX, dizendo a seus soldados: “Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”.
De repente começaram a entrar turistas na Câmara do Rei. Comentei com meu amigo: “Terminou o bloqueio das velhas senhoras norte-americanas”. Descemos, antes detendo-nos na Câmara da Rainha, e depois, ao ar livre, ainda fomos ver a Esfinge de perto.

Rubens Gonçalves saindo da Pirâmide,
de volta às areias do deserto.

Souto Neto e Rubens Gonçalves visitam a Esfinge.

Antes de deixarmos o Cairo, fizemos algumas visitas importantes, tais como à Mesquita de Alabastro e a outras também de grande beleza, e passamos uma tarde no Museu do Cairo, cujo ponto máximo foi a sala com os tesouros de Tutankamon. Também navegamos pelo Nilo. Porém nada me pareceu mais marcante do que o passeio ao interior da Grande Pirâmide. Às vezes penso nisso e me vejo ainda admirado, murmurando para mim mesmo: “Parece incrível... Mas eu estive lá!”.

Montagem fotográfica com areia colada, colhida na base
da Pirâmide de Quéops. Foi o cartão que Souto Neto
enviou do Cairo para os amigos.

Ilustração original: Fotomontagem de Souto Neto com as Pirâmides de Guizé.

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