quinta-feira, 18 de agosto de 2011

OS CACHORROS EUROPEUS E A DOCE VIDA por Francisco Souto Neto


OS CACHORROS EUROPEUS E A DOCE VIDA
por Francisco Souto Neto


Folha do Batel Ano 4 – Junho 2003 – Nº 42
Diretor-presidente: José Gil de Almeida

Página 13:


Capa:



OS CACHORROS EUROPEUS E A DOCE VIDA
Francisco Souto Neto

Jamais voltei de uma viagem à Europa sem que tivesse, ao acaso, presenciado alguns episódios pitorescos envolvendo cães. Tudo sob duas diferentes óticas: a da permissividade dos seus donos e do estágio quase “social” conquistado pelos espertos animais. Adiante, os relatos de três experiências que vivenciei no Velho Continente.

O totó guloso

A Dinamarca é um dos países mais evoluídos do mundo. Estive na sua capital Copenhague, por três vezes, a primeira delas no final da década de 70. Já naquela época fiquei bem impressionado com o status conquistado pelos cães que acompanham seus donos no interior de transportes coletivos e de lojas. Mas foi em 1995 que presenciei um fato tão insólito quanto divertido.
Eu estava almoçando num restaurante-lanchonete da principal rua de pedestres de Copenhague, situado no último andar de um prédio, quando observei, sentada a uma das mesas, uma senhora enchapelada já no final da refeição, com um pequeno cão sentado a seu lado, numa cadeirinha alta, daquelas habitualmente usadas por crianças pequenas. Ela comia doces sob o olhar fixo do seu cão. De quando em quando a senhora levava à boca do animal um bom pedaço de doce, que o bicho engolia com visível prazer e gula. Ao final da refeição, ela pegou o prato e elevou-o à frente do cachorro, girando-o lentamente, como se fosse o volante de um automóvel, enquanto o totó lambia alegremente os farelos.
Senti-me fascinado com o espetáculo e, ao mesmo tempo, um pouquinho triste ao pensar que o Brasil deveria estar a milhares de anos-luz de tão admirável exemplo de respeito às liberdades individuais. Refiro-me à liberdade daquela cidadã ao levar o cachorro ao restaurante para partilhar da própria mesa. Não há como não pensar que viver na Dinamarca é quase estar no Paraíso.

O fricote do cachorro com-cara-de-gente

Recentemente em Paris, em companhia do meu companheiro de muitas viagens Rubens Faria Gonçalves, sentados para descansar um pouco na grande praça ao lado da Igreja de Santo Eustáquio, observamos que crianças e cães brincavam dentro de uma das grandes fontes com cascatas em dois níveis. Fomos ver de perto a folia que estava acontecendo sob os olhares vigilantes, mas complacentes, de mães e donos. Dentre os cães, havia quatro que chamei de “com-cara-de-gente”, de tamanho médio para pequeno, que percebemos pertencer a uma jovem senhora opulenta, de vestido vermelho. Os bichos saíam da água, fuçavam rapidamente uma sacola fechada aos pés da dona, e voltavam a mergulhar. A certa altura, a senhora de vermelho mudou-se para um local a poucos metros além da fonte, num enorme quadrilátero de grama cercado por baixa amurada que servia de assento. Ela acomodou-se e abriu a sacola, de lá retirando uma porção de brinquedos para cães, jogando-os ao centro da grama. Tanto os seus cães com-cara-de-gente quanto todos os outros que lá estavam, cerca de quinze, pegaram os objetos e saíram brincando com eles. Muitas crianças entraram na brincadeira. Para mencionar apenas um exemplo, uma menina puxava por uma das extremidades duma cordinha, e o cão puxava pelo outro lado. Quando uma das partes perdia a disputa, corria perseguindo a outra. A extraordinária brincadeira de cães e crianças parecia uma pintura de Brueghel em movimento. O que mais me impressionava era o senso de coletividade, da partilha dos brinquedos dos cachorros com-cara-de-gente com os outros animais de variadas raças e tamanhos, e também com as próprias crianças.
A certa altura a paz foi quebrada porque um com-cara-de-gente implicou com um foz terrier, e atracaram-se em barulhenta briga. As donas dos briguentos acorreram e separaram-nos à força. A dona de vermelho do com-cara-de-gente, dedo em riste, gritou-lhe em francês, repreendeu-o e castigou-o com um sonoro e merecido tapa no traseiro. Plá! Na mesma hora o bicho atirou-se de costas à grama, e as quatro patas ficaram movimentando-se desconexas, como se arranhassem o ar. A dona, impassível, de braços cruzados, apenas observava séria. Percebendo que algo de errado acontecia com o companheiro, todos os outros cercaram aquele que esperneava no ar, cheirando-o em profusão, como se fossem pessoas movidas pela curiosidade mórbida de ir ver bem de perto a desgraça alheia... Finalmente, o com-cara-de-gente virou-se e foi erguendo-se com dificuldade, a cabeça balançando para todos os lados, e para cima e para baixo, em desequilíbrio, como se estivesse tonto. A dona, que até então continuava de braços cruzados olhando-o com cara de zanga, sentou-se. E o cão, recomposto, aproximou-se dela e lambeu-lhe a mão. Enquanto os demais cachorros voltaram a brincar com os objetos e crianças, aquele permaneceu constrito ao lado da dona, que agora o afagava na cabeça. Tudo era paz outra vez.
Como explicar a cena? É que o bicho se ressentiu tanto do tapa recebido, que sofreu um desequilíbrio emocional, um quase desmaio, uma espécie de ataque nervoso. Ou seria apenas um fricote de cachorro babão? Ou – será possível?! – talvez fosse algo como uma espécie de chantagem psicológica no intento de comover a dona? De um modo ou doutro, que sensível era aquele animal com-cara-de-gente! Por outro lado, em todo aquele folguedo, que exemplo de civismo, de coexistência e de respeito em todos os sentidos: de animal para animal, de criança para animal, de animal para adulto... e vice-versa em todos os casos.

Um cão Buldogue Francês em Paris.

Mais tarde descobrimos numa enciclopédia canina, que aqueles que apelidei de “com-cara-de-gente”, são da raça “Bulldog Français”, também grafada como “Bouledogue Français” (no Brasil, Buldogue Francês). Consta que a mais marcante característica desse cão é a docilidade. Diz também que o animal é tão sensível que, se for repreendido pelo dono, é capaz de passar horas e horas muito triste, encolhido num canto da casa. Justifica-se assim a reação do com-cara-de-gente à reprimenda da sua dona, a opulenta senhora de vermelho...

O cão aloprado de Ortisei

Em Ortisei, na Itália, eu e Rubens Gonçalves passeávamos por uma trilha das Dolomitas (nome recebido pelos Alpes naquele setor italiano), quando um cão aparentemente da raça Hovawart, saltando dum barranco, estacou à nossa frente com uma cara muito esquisita. Assustei-me e comentei: “Parece um cão aloprado”. Rubens, mais corajoso e decidido, afagou-o para demonstrar que se tratava de um cachorro manso. Continuamos andando e o Hovawart correu à nossa frente, cavou a grama e trouxe na boca uma pedrinha, que soltou a nossos pés. Como prosseguimos caminhando pela trilha, ele nos alcançou e, novamente, atirou a pedrinha à nossa frente. “Ele quer brincar”, interpretou o Rubens, apanhando o pequeno seixo. O cachorro mostrou-se muito feliz, e a brincadeira começou. Nós atirávamos a pedrinha longe, e ele a encontrava nos lugares mais difíceis, trazendo-a de volta. Quando nos cansamos e seguimos nosso caminho, resolvemos ignorar a pedrinha que, por várias vezes, ele atirava à nossa frente. Foi então que o vimos correr adiante, cavar o chão e trazer-nos uma pedra bem maior que a anterior. Como continuamos sem corresponder à brincadeira, ele mais uma vez correu adiante e cavoucou fundo, trazendo-nos uma enorme pedra na boca, do tamanho de um punho fechado, deixando-a cair ruidosamente à nossa frente, como se dissesse: “Esta pedra vocês não poderão fingir que não vêem”. E assim vencidos pelo cão “aloprado” (que de aloprado no sentido de amalucado não tinha nada, pois era inteligentíssimo e fazia com que nós obedecêssemos ao seu desejo de brincar), retomamos, mas com uma pedra menor, e brincamos com o animal por mais um bom tempo. Quando resolvemos ignorá-lo definitivamente, ele cansou-se da provocação e correu pela trilha asfaltada até a um banco sob uma árvore, distante uns 50 metros, onde duas senhoras idosas conversavam animadamente.O animal pegou um graveto, soltando-o quase aos pés das duas damas, e ficou olhando-as à espera de uma reação.Cumprimentei-as e comentei em meu sofrível italiano: “ele quer brincar com as senhoras”. E uma delas, sorrindo: “Nós sabemos. Conhecemos esse cachorro insistente, mas não queremos brincar agora com ele”. E o cão correu à nossa frente, desaparecendo na trilha.

Rubens Gonçalves e o Hovawart "aloprado".

Souto Neto mostra a pedrinha ao Hovawart.

Rubens Gonçalves e o Hovawart. Ao fundo, Ortisei.

Francisco Souto Neto num momento de descanso nas belas trilhas de Ortisei.
Um casal idoso conversa com uma amiga sentada logo abaixo.
Muito ao fundo, à distância, fica a cidade de Ortisei.

Prosseguimos nossa caminhada entre as florestas e as montanhas dolomíticas, até que, mais ou menos um quilômetro adiante, numa lanchonete à beira da trilha, vimos de longe o mesmo cachorro brincando com três crianças, enquanto os pais tomavam algum refrigerante numa das mesas colocadas ao ar livre. O Hovawart oferecia um graveto às crianças, e estas, em meio a ruidosas correrias, o atiravam aos locais mais absurdos, como nos precipícios. O animal saltava como um doido nos despenhadeiros e retornava sempre muito contente com o galho na boca. Agora ele tinha encontrado os amigos ideais e agitados com quem brincar.
Cachorro esperto: era ele quem brincava com as pessoas, era quem as escolhia, e não ao contrário, como estamos habituados a ver...

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OBSERVAÇÃO em agosto de 2011: Logo depois de termos visto o episódio com os cachorros com-cara-de-gente em Paris, meu amigo Rubens Faria Gonçalves resolveu comprar um filhote daquela raça, e encontrou pela internet um animalzinho no Canil Dalla Nora, de Porto Alegre, de premiados criadores de Buldogues Franceses no Brasil.


Rubens Faria Gonçalves e seu Buldogue Francês, a quem deu o nome
de Tibério Bouledogue. A data gravada na foto (23.5.2003)
atesta que este foi o 2º dia após a chegada do Tibério.

Tibério Bouledogue no mês seguinte à sua chegada,
já muito fortalecido e esperto.

A história da vinda desse filhote para Curitiba foi publicada na mesma edição da Folha do Batel, sob o título de VARIG, “CARGA VIVA”, EXTRAVIO E INCOMPETÊNCIA, que se lê na próxima transcrição deste blog.

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